terça-feira, 5 de julho de 2016

La Mision 2016: Episódio 3 - A liderança de Roger.

Por André Caúla

Etapa 3 - Puerto Manzano até Villa La Angostura (160km)

Eram cerca de duas horas da madrugada. Já tínhamos 110km nas costas em mais de 34 horas de prova. Começamos esta etapa caminhando pelo acostamento de areia e terra da rodovia argentina Ruta Nacional 40, que corta o país de norte a sul. Era uma noite fria com uma linda lua no céu. Alguns quilômetros adiante, a marcação nos apontava para seguir uma trilha a esquerda, floresta adentro. Por incrível que pareça estávamos bem dispostos. Avançamos lentamente, superando os diversos obstáculos de troncos e rios que a natureza nos impunha, com a visão limitada pelo feixe de luz de nossas headlamps.


Entre saches de gel e barrinhas energéticas, sentia um desconforto na boca, meus dentes estavam espessos e pegajosos, precisava resolver aquilo. Sim, eu corri com uma escova de dentes. Na minha opinião um item obrigatório indispensável para que pretende ficar vários dias afastado da civilização. Aproveitei um momento em que Ashbel precisou parar e resolvi escovar meus dentes sentado sobre um tronco caído. Foi engraçado ver alguns atletas nos passando e nos olhando com estranheza. Acho que ainda não haviam visto um corredor parar para escovar os dentes durante a competição.

Cruzamos novamente a região conhecida com Tapera Linda, com o dia começando a clarear. Neste momento, o Roger percebeu que o Ashbel estava cambaleante, embriagado pelo sono acumulado de uma noite mal dormida. Imediatamente, ele propôs de pararmos por alguns minutos. Um vento frio e cortante estava presente. Procuramos uma área protegida, uma espécie de cratera lunar no meio da vegetação rasteira que atravessávamos naquele momento. Nos encostamos e descansamos por cerca de 15 minutos.

Agora rejuvenescidos, retomamos nosso caminho. Sob um vento cada vez mais forte, novamente, enfrentamos a duríssima subida em direção ao Cerro Newberry, mas desta vez no sentido contrário. Ao alcançar seu cume, a 1.825m de altitude, começamos provavelmente o trecho mais duro daquele dia, uma descida de terra e pedras soltas, extremamente íngreme e escorregadia. Confesso que senti medo de cair e rolar montanha abaixo. Por isso, desci com muita cautela e lentidão. 

Após concluir esta descida, adentramos novamente a floresta. Seguimos em uma formação onde o Roger ia na frente, pois conseguia manter um ritmo mais constante, seguidos por mim e Ashbel. Nesta fase, aquela vegetação já conhecida e um trecho plano monótono, sem grandes desafios, geraram uma sonolência irresistível. Quando o Roger olhou para trás, e viu seus parceiros andando de olhos fechados, como uma espécie de zumbis, decidiu imediatamente parar. Encontrou um lugar fora da trilha, limpou o solo dos espinhos e esterco espalhado na floresta, mas já era tarde demais. Os dois corpos moribundos já estavam desacordados e estirados sobre espinhos e fezes, logo adiante. Por 15 minutos eu sonhei escutando vozes distantes do Roger conversando com os corredores que passavam. Aquela altura da prova, não de forma intencional, mas Roger havia aceitado silenciosamente uma missão, a qual já vinha exercendo há algum tempo, talvez ainda de forma inconsciente, mas ele era nosso capitão. Desde o início, desde a escolha da prova até a seleção dos componentes da equipe, ele arquitetou meticulosamente. Fez com que nós desejássemos estar ali, vivendo intensamente cada momento, passando dificuldade, nos testando até a exaustão, superando nossos limites e fortalecendo nossa amizade. Somente um louco psicopata faria isso com tamanha com maestria.


Novamente revigorados, continuamos pela floresta até chegarmos a um local reconhecido. Era um tronco de árvore caído sobre um riacho que havíamos passado no dia anterior. Atravessamos, eu e Roger por sobre o tronco e Ashbel optou por descer e cruzar o riacho. Em seguida subimos por uma escadaria até alcançar a base do Centro de Esqui do Cerro Bayo. Lá estavam alguns stafs e atletas  conversando. Anotaram nosso numeral. Tentei sem sucesso encontrar uma venda e comentei que gostaria muito de uma Coca-Cola. Lá sentado, estava um atleta, se preparando para enfrentar a última de todas as subidas. Com uma simpatia singular, conhecemos o argentino Jose Luis Gutierrez, um corredor experiente que já havia participado desta prova algumas vezes e conhecia bem o caminho. Eis que de repente ele me surge com duas garrafas de Coca muito gelada e nos presenteia. Para muitos um simples ato de bondade, mas para mim, exausto, em atividade há mais de 40 horas, aquilo foi um ato de amizade. Em muitos outros esportes, eu deveria ser considerado um oponente, um adversário. Mas não aqui, não neste esporte. Estas simples atitudes são o real motivo pelo qual eu amo este esporte. Solidariedade com uma pessoa que você nunca viu na sua vida. Sem interesses obscuros. Simplesmente ajudar o próximo. O esforço fisico intenso e o contato íntimo com a natureza, nos permite esta sintonia, um verdadeiro "Estado de Espírito".


E assim subimos o Cerro Bayo, caminhando acelerados, leves, conversando e felizes. Atingimos o cume, sem perceber, sem nos cansar. Tiramos fotos e nos despedimos de Jose Luis. Começamos a descer. Eu fiquei por último. Confesso que adoro descidas, mas naquele momento preferia uma subida. As descidas machucam, doem e eu já estava sentindo dores o suficiente. Meus joelhos, meus pés, minhas costas, minhas coxas, tudo incomodava. Desci lentamente, mas determinado e otimista. 



Alcançamos o asfalto e começamos a trotar. Passamos por alguns atletas que caminhavam com dificuldade, mancando, com as pernas abertas pelas assaduras, apoiado em seus bastões, cenas de uma batalha que estava chegando ao seu fim. Entramos na cidade, alguns pedestre aplaudiam, outros gritavam. E cada um daqueles estímulos parecia nos fornecer mais energia. Cruzei a avenida principal de Villa la Angustura com a certeza que completaria o desafio. Não com o tempo que previ. Bem mais, mas ainda assim um recorde pessoal da maior distância percorrida. E, finalmente cruzamos a linha de chegada, os três juntos, alinhados, vencedores, pois aqui "Chegar é ganhar!".





terça-feira, 26 de abril de 2016

La Mision 2016: Episódio 2 - A krypnonita de Ashbel.

Por André Caúla

Etapa 2 - Villa Traful até Puerto Manzano (110km)

O sol começava a aparecer no horizonte. Caminhávamos por um estrada de terra que beirava o Lago Traful. Um belo amanhecer. Passamos por lindas casas de madeira, um porto repleto de barcos e lanchas, diversos acampamentos onde as pessoas começavam a despertar. Seguimos nesta estrada por cerca de 9 quilômetros. Após cruzar os arroyos Media Luna, e Cataratas viramos a esquerda e começamos a subir uma trilha pela floresta. 

Ficamos um bom tempo subindo aquele caminho que acompanhava um rio de águas cristalinas e suas diversas quedas d`água. Dava vontade de parar para mergulhar. Mas as paradas eram breves e se limitavam as necessidade fisiológicas ou para passar mais vaselina, bepantol e colar esparadrapos nas feridas. 

A cada travessia de rios, tentávamos manter os pés secos, o que foi impossível no dia anterior. Fazíamos malabarismos tentando descobrir rotas seguras ou caminhos alternativos, simplesmente para não molhar os pés. Ashbel desistiu rapidamente desta estratégia e meteu os pés. Eu e Roger conseguimos adiar este momento até um ponto em que não houve mais possibilidade. Seguimos então todos com os pés molhados. A associação de tênis/meias/pés molhados, mais areia/pedras, mais longos percursos de subida e descida era implacável e o resultados eram bolhas grandes e dolorosas.  

Avistamos adiante, duas atletas argentinas que mantinham um bom ritmo. Lembrei delas, estavam no ginásio na noite anterior e haviam saído mais cedo. Ultrapassamos. Seguimos sozinhos muitos quilômetros de floresta até que avistamos uma imponente montanha. O Roger disse que era o Cerro O`Connor e que era nosso destino. Eu duvidei. Me parecia a direção contrária. Eu não poderia estar mais errado. Chegamos a um posto de controle. Os staffs nos avisaram que ficaríamos por um longo período sem acesso a qualquer fonte de água. Aquele era o último local de abastecimento até o Camp 2. Para acessar o rio tinha que descer muito. Olhei para baixo, não consegui ver nada. Mal escutava o som das quedas d'água. Decidi ir com a quantidade de água que tinha. Não era muito, mas o mínimo necessário. Começamos então uma longa subida. A floresta desapareceu, dando lugar a areia e pedras. Um vento frio e constante começava a incomodar. De repente, eis que surgem as argentinas. Subindo numa cadência invejável, usando com extrema habilidade seus bastões. Meu orgulho masculino ferido me obrigou a acelerar e tentar acompanhá-las. Impossível. Assisti frustrado elas desaparecerem no horizonte. 

A imagem delas distantes, me apontavam o caminho que eu deveria seguir. A imagem era ao mesmo tempo assustadora e extraordinária. Caminhar naquela íngreme montanha, dava a sensação que qualquer queda seria fatal. Ashbel andava envergado. Parecia um barco a vela quando bate um vento lateral forte. Estava assustado, mas determinado a seguir, superando seus medos. Sem sombra de dúvida, era a montanha mais incrível deste desafio. Cerro O`Connor. Seguimos por suas arestas e seus sete cumes. Parecia infinito. O sentimento era simplesmente indescritível. Mais adiante, um acesso escondido atrás de um dos cumes, reservava uma surpresinha. Uma descida inclinada. Na verdade era praticamente um buraco. Com areia e pedras. Soltas. Uma corda amarrada. Nenhum staff. Nada. Cheguei primeiro. Segurei a corda, com medo. E desci. Fiquei aguardando meus companheiros. O vento forte abaixou minha temperatura. Me tremia de frio, apesar do sol forte brilhando no céu. Resolvi continuar e procurar um local mais protegido. Estava preocupado com aquela travessia e a corda. Será que o Ashbel conseguiria passar. Felizmente, minha aflição não durou muito, eles haviam passado nem maiores dificuldades.  Um posto de controle adiante anotou nossos números.

Ainda no alto da montanha, Roger estava preocupado com a quantidade de água restante e o tempo que ainda teríamos antes de anoitecer. Aceleramos. Já era possível ver a floresta novamente. O vento forte começava a desaparecer, assim como o sol. Agora era trilha com descida. Começamos a correr. Reencontramos as argentinas. Desta vez, ficaram para trás. Nosso ritmo estava muito forte. Rapidamente chegamos a uma estrada de terra. Nossos pés estavam muito castigados. Pela primeira vez, Ashbel pediu para caminhar. Em uma mangueira furada em frente a uma casa de madeira típica da região, nos refrescamos e abastecemos com água. Quando alcançamos uma estrada de asfalto, percebemos que Ashbel havia ficado para trás. Roger resolveu esperá-lo, enquanto eu continuei caminhando lentamente.

Sozinho, segui pela lateral da rodovia. Já estava bem escuro. Acendi minha headlamp. Adiante, a luz de um carro estacionado do outro lado da estrada. Ao passar, recebi os cumprimentos, palmas e palavras de incentivo em espanhol. Provavelmente familiares de algum atletas argentino. Agradeci e segui em frente até desaparecerem do meu campo de visão. Não havia nada a frente. Também não tinha mais nada visível atrás, nenhuma luz. Onde eles estavam? Estaria tudo bem? Será que eu não observei alguma entrada? Deveria voltar? As dúvidas eram muitas, mas eu seguia em frente, como se meu corpo não estivesse mais sob meu controle. Continuei. Ao olhar para trás, vi um luz. Queria que fossem duas, mas era uma só. Se aproximava rapidamente. A minha frente uma placa, discreta, do outro lado. Atravessei a estrada, quando a luz me alcançou. Era o Roger sozinho. O que houve? Perguntei. "O Ashbel está cansado e estressado, nestes momentos é melhor deixá-lo sozinho!", respondeu.

O Camp 2 estava a 500 metros. Puerto Manzano. Eram cerca de dez da noite. Quando chegamos, novamente a cena de corpos estirados pelo chão. Desta vez, não era um ginásio, mas um deck de madeira com vários níveis a beira do lago Nahuel Huapi. A céu aberto. Repetimos o ritual de averiguação dos itens obrigatórios. Em seguida, entrei imediatamente em uma lanchonete e pedi uma pizza com coca. Esta é provavelmente a única situação que me permito tomar coca. Nossa, como desce bem. Roger sentou ao meu lado. Olhei para a mesa ao lado e vi que deixaram duas fatias de pizza. Pensei em pegá-las. Comentei com o Roger e pela sua reação percebi que tinha ligado meu modo "Sobrevivência", uma mistura de aventureiro com mendigo, tipo um corredor de aventura.

Roger com um semblante bem preocupado saiu para procurar o Ashbel. Sai pouco tempo depois. Ao encontrá-lo, conversamos, ele estava com muitas bolhas e assaduras. Começamos a arrumar nosso acampamento. Escolhemos um canto sobre o deck de madeira. Descobrimos que havia água quente no banheiro masculino. Em sequência, Roger, eu e Ashbel resolvemos tomar um banho. Mas na vez do Ashbel, a água quente acabou. Tomou banho frio. E como estava frio naquele local. Mesmo dentro do saco de dormir, eu tremia. Dor, cansaço, a luz do poste que batia em nossa cara, vento, outros atletas conversando alto e o pior de tudo, uma música alta do Jack Johnson e suas melodias todas idênticas. Inervante. Roger fez um casulo, onde não se sabia onde era pé ou cabeça, e dormiu como uma criança em seu berço aquecido. Eu, novamente, dava breves cochiladas. A cada vez que abria o olho, via o Ashbel em uma posição diferente. Desta vez, meu pensamento se fixava em "Tomara que ele não desista!" Nós três nos conhecemos a um bom tempo, programamos e treinamos juntos com muita dedicação para esta prova. Sabia o quanto este desafio seria difícil e que qualquer desfalque no grupo seria impactante. Mas o Ashbel, até aquele dia parecia inabalável, soberano, o mais veloz, o mais leve. Cantava enquanto corria. Sorria. Recitava mantras. Esbanjava alegria. Não, definitivamente não poderíamos perdê-lo.

Depois de algumas horas tentando, sem muito sucesso, relaxar, perguntei pro Ashbel: "Você está bem? Vamos continuar?". "Estou com os pés doendo e assado, mas disposto a continuar", respondeu. Roger acordou assustado com a possibilidade de uma desistência. Eram duas e pouco da madrugada. Noite escura. Jack Johnson continuava no microfone. Incansável.   Decidimos continuar. Nos arrumamos, comemos  e partimos pela escuridão para a etapa final.


















terça-feira, 12 de abril de 2016

La Mision 2016: Episódio 1 - A perdição de Caúla.

Por André Caúla

O desejo por participar desta prova era bem antigo. Sempre me senti atraído pela sua localização (sou apaixonado pela Patagonia), seu formato de semi-autonomia e sua distância desafiadora. Após concluir com sucesso os 100km do CCC no Mont Blanc, me senti seguro o suficiente para encarar este desafio. Me acompanhando nesta aventura, repetimos a mesma formação do Half Mision Serra Fina 2013, meus grandes amigos Roger e Ashbel.  Também me acompanhava nesta missão, meu amigo e companheiro de farda, Cristiano Marcelino.

Com esta formação chegamos a pequena cidade de Villa la Angostura. Durante o transfer do aeroporto de Bariloche até Angostura, conhecemos o simpático Nestor Moussampez, argentino residente na região, que com uma tatuagem da altimetria da prova no antebraço e algumas participações no La Mision, nos forneceu algumas orientações sobre a corrida. Vale dizer que estas informações acabaram por nos confundir mais em relação ao nosso planejamento inicial. 

Pegamos nossos kits, composto de camisa, buff, numeral (Coincidentemente repeti mesmo 33 do Half Mision 2013) e duas sacolas onde colocaríamos material para ser enviado para os kms 65 e 110. Somente o essencial, simples assim. Como em 2013, o patrocinador do evento, a Marmot não se deu ao trabalho nem de fabricar a camisa, nem mesmo de oferecer ao vencedor algum prêmio.

Etapa 1 - Villa La Angostura até Villa Traful (65km)

A largada ocorreu pontualmente as 11 horas, e todos os atletas do Half  e La Mision seguiam juntos acompanhando o "carro madrinha" durante o trecho urbano do percurso. Poucos quilômetros depois, o carro parou e entramos em um single track subindo pela floresta em direção ao col Colorado.

Há esta altura o visual já era incrível. Paramos para fotografar e seguimos adiante ainda em grupo. Começamos então uma descida em direção ao Cajon Negro. Fiquei um pouco para trás, e resolvi acelerar aproveitando a descida. Em um determinado momento, cerca do km 10, eu virei a esquerda em velocidade. Me orientava por umas marcações vermelhas pintadas nos troncos de árvore. Percebi, que tinham poucos atletas neste momento e desconfiei que tinha algo errado. Neste momento, ouvi um grito de um corredor logo atrás de mim. Parei e caminhei ao seu encontro. O argentino me disse que desconfiava que havíamos pego o caminho errado. Decidimos voltar. Após subir alguns minutos, nos encontramos com um grupo de três atletas, que afirmaram ter certeza absoluta de que este caminho estava correto. Voltamos a descer, agora com um grupo maior. Chegamos em uma bifurcação com placas, cujos nomes escritos, eu não conhecia, nem tinha ouvido durante a palestra técnica. Uma das placa apontava para Villa La Angostura. Resolvemos voltar. Novamente. Minha cabeça pirou. Aquele ânimo todo deu lugar a uma depressão. Caminhava lentamente, sem saber se seguia para o rumo certo. Aonde estariam meus parceiros? Será que a prova acabaria ali para mim?

Encontramos uma fita de marcação da prova. Ufa, estava de volta. Ainda chateado. Tinha corrido cerca de 2 ou 3km a mais e perdido cerca de uma hora e pouco. Tentando me concentrar, comecei a subir o Cerro Buol. Olhando para frente e para cima, vi que o caminho era uma parede de pedras soltas e que cada atleta escolhia qual o melhor itinerário para chegar ao topo. Tracei uma reta imaginária e segui por um caminho que ninguém trilhava.


Ouvi um grito muito ao longe com uma voz familiar. Parecia o Roger. Olhei para cima, mais não reconheci ninguém. Eram vários atletas muito distantes. Mais um grito me pedindo para levantar as mãos. Acenei. A felicidade havia voltado. Havia reencontrado meus parceiros. Acelerei, dentro do possível e os alcancei no topo da montanha. Sentamos, acompanhados de um cachorro que seguia os corredores. Fizemos um lanche e conversamos sobre meu erro. Ofereci metade do meu sanduíche para o cão. Roger gritou, me alertando. E o cão quase mordeu os meus dedos. Felizmente foi só um susto. Havia feito isso também com ele.  Demos água para o cachorro. O vento estava muito forte, e decidimos continuar. Seguimos pela crista da montanha, descendo em direção da floresta.

Dentro da floresta, cruzamos o rio Voruco, e neste ponto, nos separamos dos atletas inscritos nos 80km. Voltamos a subir ainda na floresta. De repente, a mata acabou e começamos a subir o Cerro Newbury. Era a primeira edição do La Mision que incluía esta montanha. Simplesmente assustadora. Além da inclinação terrível, o terreno era uma mistura de areia e pedras em um ataque frontal, que nos obrigava a escorregar um passo atrás a cada dois adiante. Abaixei a cabeça e, com o ritmo dos bastões, enfrentei o monstro. Segui na frente e alcancei o cume. O vento estava muito forte. Me sentei, enquanto esperava meus parceiros e aproveitei para comer e colocar um agasalho. Roger chegou e se sentou ao meu lado. Não estava bem, visivelmente abatido. Havia falhado na alimentação. O frio estava intenso e resolvemos continuar. Descemos em direção da floresta abaixo.

Um trecho de floresta interminável. Acompanhando e cruzando diversas vezes o rio Minero. Seguimos assim, trotando e caminhando, com os pés encharcados, em uma fila indiana juntos aos outros atletas. O Ashbel estava ótimo, alegre e bem disposto. Dava inveja.




O céu começou a escurecer, quando por volta do km 45, a carreata se desfez, e começamos sozinhos a subir o último desafio desta primeira etapa, o Cerro Piedritas. Fiquei um pouco para trás, acompanhando meus parceiros a distância. Estava cansado. Chegamos ao cume já de noite. Roger e Ashbel aceleraram na descida. Tentei acompanhar, mas não conseguia. Meus joelho esquerdo doía. Continuei caminhando pela escuridão. Sozinho. Vários atletas me passavam, e eu nada podia fazer. Avistei a civilização iluminada distante na escuridão. Meu ritmo era lento e inconstante. Vi um atleta parado adiante. Na verdade, um ponto de luz imóvel adiante. Era o Roger me esperando. Avancei ao seu encontro. Quando cheguei, comecei a falar que sentia o joelho, estava cansado e que ele poderia seguir adiante, já que eu levaria mais tempo para descer a montanha. Levantei a cabeça. Não reconheci meu amigo. Não era o Roger. Somente um atleta olhando para mim com a cara estranha. Continuei. Cheguei a uma estrada de terra. Sinal de civilização. Sentia muito frio. Sentia fome também, mas não queria parar antes de atingir meu objetivo do dia. Levantei a cabeça e vi um ginásio.

Finalmente, Villa Traful, 65km. O relógio marcava duas e pouco da manhã. Entrei no ginásio. Corpos estirados pela quadra. A staff conferiu meu número, me entregou minha sacola do Camp 1 e me solicitou que mostrasse o saco de dormir e o bivaque. Itens obrigatórios. Meus parceiros dormiam no canto da quadra. Tirei meu tênis. Peguei água quente e preparei a comida. Calcei uma meia seca. Entrei no saco e tentei dormir. Algumas breves cochiladas. Sentia o joelho. Sentia muito desconforto, deitado naquele chão de cimento frio e duro. Os pensamentos vagavam pela minha cabeça. Apesar de todas as dificuldades iniciais. Estar perdido, aflito sem saber se chegaria ao meu destino. Após meses de treinamento e dedicação, consegui alcançar a primeira meta. Uma sensação agradável de dever cumprido me dominava. Junto com uma preocupação do que viria a seguir. Do futuro iminente. Fiquei assim, num pensamento semi-sonolento, por quase duas horas. Até que me despertei. Ashbel também estava acordado. Roger levantou em seguida. Nos arrumamos e começamos a segunda etapa do La Mision.





















domingo, 3 de abril de 2016

Meu pé esquerdo

Por Marcelo Krieger


*Este é um relato de Marcelo Krieger. Nos conhecemos em 2011, durante os treinos para nossa primeira participação no Cruce. Rapidamente nos tornamos grandes amigos. Uma pessoa excepcional e um atleta forte e dedicado. Descobriu recentemente um problema sério decorrente dos fortes treinos de corrida.  Aqui está seu relato para que sirva de exemplo para outros corredores. Nosso desejo sincero de que se recupere prontamente para subirmos as montanhas juntos novamente.  André Caúla


Dizem que uma única pane não derruba um avião. São necessárias pelo menos três. Tempo ruim, falha em turbina e erro de piloto não são capazes de sozinhas abater uma aeronave. Porém, juntando uma falha de piloto e turbina em uma tempestade cria-se uma condição que pode ser fatal.

Foi algo assim que aconteceu comigo. Tenho pé plano. Pisada pronada é marca registrada de infância. Só isto não me levaria para uma mesa de cirurgia. Assim como lesões ligamentares mal cuidadas e a decisão de participar de provas de trilha com treinos acumulando mais de 100km na semana, individualmente provavelmente não teriam me derrubado.

Mas, tudo isto veio junto e no momento estou com o pé no gesso, recuperando-me da primeira cirurgia das duas que terei que fazer. Nesta etapa, meus ossos deformados foram colocados de volta no lugar. Os tendões rompidos estavam tão ruins que tiveram que ficar para uma segunda etapa, quando farei enxertos para repor os tecidos estragados que carrego hoje.

Mas, como cheguei a isto?

Que eu me lembre, os primeiros sintomas começaram no primeiro semestre de 2010. Treinos de natação com um pé de pato de lâmina dura me causaram inflamação nos tendões do pé e foi quando as dores começaram. Mas, era suportável e fui em frente. A partir daí, passei a ter recorrência nas dores. Mas continuava suportável e continuei indo em frente.

No segundo semestre de 2011, descobri o Cruce de Los Andes. Os treinos aumentaram, mas ainda até aqui estava tudo bem. Fiz o Cruce em fevereiro de 2012. Lá descobri o UTMB e resolvi fazer a CCC. Para isto, precisava de dois pontos e os obtive em setembro, correndo a Run Rabbit Run 80km, no Colorado.

Em janeiro de 2013 tive a felicidade de ser sorteado para a CCC. Meus treinos passaram a incluir uma sessão semanal de trilhas com 3, 4 e até 5 horas de duração. Também como parte da preparação, fiz os 80Km do XTerra de Ilha Bela. Essa prova me deixou muito dolorido, mas faltando apenas 2 meses para a CCC, continuei em frente.

Só quem já passou por alguma das provas do UTMB tem noção do que significa participar de uma delas. Todos os adjetivos empalidecem perante o ambiente, a paisagem, a organização, o astral e o espírito da última semana de agosto em Chamonix. Completei a prova em pouco menos de 25 horas, tendo corrido na primeira metade (55km) e na maior parte do tempo caminhado a segunda metade. Completei. Extremamente feliz. Mais ciente que algo estava muito errado com meu pé.

Ao retornar fiz uma ressonância. Meu pé estava desabado, mas a interpretação da imagem ainda não demonstrava que o tendão estivesse rompido. Busquei me recuperar como manda o figurino. Repouso, seguido de volta progressiva à atividade, acompanhado de fisioterapia, acupuntura, osteopatia e o que mais houvesse para voltar a ficar bem. Novamente de forma retrospectiva, deve ter sido em uma sessão de exercícios de fortalecimento na academia, que houve a ruptura definitiva do meu já bastante combalido tendão tibial posterior.

Cancelei minha ida ao Cruce em fevereiro de 2014. Fiz uma péssima meia maratona de Nova York em março e voltei decidido a me recuperar.

Um parêntese importante. Não pensem que fiz tudo isso de forma (totalmente) irresponsável e estúpida. Consultei médicos. Mais de um. E eles me disseram o seguinte: se parasse de correr (impensável) pararia de doer. Se operasse, não voltaria a correr (impensável). E se continuasse, doeria mas não pioraria. Então, a decisão estava tomada. Seguir em frente.

De abril de 2014 em diante, minha rotina passou a incluir fisioterapia diária. Fui me recuperando (pelo menos eu achava que estava me recuperando). Fiz os 50km do XTerra de Mangaratiba em agosto no mesmo tempo que havia feito dois anos antes. Fiz os 80Km da Harricana de Charlevoix em setembro em 13 horas. Fiz a meia maratona do Halloween em Miami em outubro e finalizei em 3o lugar na categoria com 1h33m. Em janeiro de 2015, fiz o Desafio do Dunga. Após, os 5km na quinta-feira, os 10km na sexta-feira, a meia maratona no sábado, completei a maratona no domingo em 3h33, ficando em décimo lugar na categoria e obtendo o tempo necessário para me qualificar para a maratona de Boston. E para completar o rush, mais um Cruce. Eu e meu primo Joel, conquistamos o segundo lugar nesta edição, na categoria dos ultra velhos, com a soma de idade superior a 110 anos. 

Depois de tudo isso, meus planos eram bastante mais singelos. Em junho acompanhei minha filha na sua primeira meia maratona. Em agosto fiz a OCC, a prova mais curta do UTMB. Depois disso, preparação para a maratona de Boston.

Ao voltar da OCC, novamente pensei em me recuperar como manda o figurino. E aqui a coisa desandou de vez. Ao longo de 2015, comecei a perceber meu calcanhar desviado para o lado de fora. Eu não sabia, mas o que me parecia apenas algo ligamentar, era na verdade uma deformação óssea. As dores aumentaram, a ponto de me impedir de treinar. Em dezembro joguei a toalha. Fiz nova ressonância, que desta vez deixou claro o rompimento do tendão. Cancelei minha ida a Boston. Procurei os cirurgiões e comecei esta nova jornada.

Com tudo o que realizei nestes dois anos e a perspectiva que me foi apresentada de que eu não voltaria a correr caso tivesse feito diferente, eu não me arrependo do que fiz e como fiz. Mas os tempos agora são outros e parado eu já estava. Logo, o caminho tinha que ser diferente.

Como eu disse no começo, esta primeira etapa consistiu na correção óssea. O calcanhar foi cortado (osteotomia), colocado na posição certa e fixado com dois parafusos. Para completar foi feito um alongamento da lateral externa do pé, através de um enxerto ósseo.

Estou escrevendo isso com quinze dias de operado. Tirei os pontos há dois dias e estou com o gesso, que me acompanhará pelo próximo mês. O iWalk 2.0 tem me ajudado muito nesta fase. Não dependo das pessoas para tudo. Posso me movimentar livremente e já na segunda semana trabalhei normalmente. Também iniciei uma rotina de exercícios diários para manter o tônus muscular, incluindo passeios até a academia da terceira idade e uma sessão semanal de Pilates. Na próxima semana farei a primeira radiografia para ver como está a consolidação. Conforme estiver, poderei voltar a colocar o pé no chão com carga parcial. Depois de tirar o gesso, mais duas a três semanas de bota “Robocop”, para então colocar o pé dentro de um sapato novamente.

E aí, volto para a mesa cirúrgica. Minha expectativa é de realmente me curar e poder voltar a correr. O tempo vai dizer.