terça-feira, 26 de maio de 2015

A evolução natural das Corridas em Trilhas

A necessidade do homem de correr velozmente curtas ou longas distâncias é tão antiga quanto a humanidade. Ser rápido, permitiu ao homem sobreviver, caçar animais para se alimentar, ou mesmo escapar de um perigo iminente. Em um tempo onde não haviam estradas, nem túneis para evitar as montanhas, sem pontes para atravessar os rios, o homem era obrigado a correr pelas colinas, sobre as montanhas, através das florestas e cruzar rios, tão rápido quanto podia. E ele não estava correndo por medalhas, troféus, dinheiro ou glória, corria simplesmente para sobreviver.

Hoje, não corremos mais por estes motivos, porém, algumas pessoas ainda sentem, quase como um instinto natural, um forte desejo interior de correr seja na natureza, sobre as montanhas ou no asfalto liso e plano.

Definições
A corrida em trilhas é a precursora de todas as corridas. Em 1995, a Federação Atlética Britânica aprovou a primeira definição formal para os eventos de corrida em trilhas. De acordo com a Associação Internacional de Corridas em Trilhas (ITRA), a corrida em trilhas é definida como uma corrida pedestre em que todas as pessoas podem participar, realizada na natureza (montanha, deserto, florestas ou campos), com obstáculos naturais (tais como subidas com diferentes inclinações, descidas, troncos de árvores, pequenos riachos, grama e terra batida) e devidamente sinalizada, ou seja, os corredores deverão receber informação suficiente para completar a corrida sem se perder.

O principal critério para definir uma corrida em trilhas é que o trajeto tenha uma superfície natural, ou seja, não-pavimentada. A corrida em trilhas pode ser realizada na grama, pedras, areia, cascalho, lama, neve ou água. Entretanto, devido a grande urbanização mundial, a ITRA aceita que uma pequena parte do percurso possa ocorrer em vias pavimentadas e/ou asfaltadas, porém não deverá exceder 20% do curso total.

A corrida em trilhas deve ser realizada idealmente em auto suficiência ou semi–auto suficiência, ou seja, os corredores tem de ser autônomos, entre as estações de ajuda, em relação a vestuário, comunicações, alimentos, bebidas e equipamentos de emergência. Considerando que muitas provas são realizadas na natureza selvagem e em locais remotos, é enfatizado que os atletas devem ter respeito à ética desportiva, lealdade, solidariedade e, sobretudo, preservar o meio ambiente.

Panorama Internacional
Em 2012, foi realizado o primeiro Fórum Internacional sobre Corrida em Trilhas, em Courmayeur na Itália, que reuniu mais de 150 pessoas, entre organizadores de corridas, fornecedores, mídia e atletas de elite de 18 países em todo o mundo. Esta conferência permitiu a todos os participantes a tomar consciência da diversidade de pontos de vista e da necessidade de organizar as Corridas em Trilhas como uma disciplina separada, tendo em conta as abordagens a todos os continentes: Américas, Ásia, África, Oceania, Europa. Assim, foi criada em Julho de 2013, a Associação Internacional de Corridas em Trilhas (ITRA). Entretanto, oficialmente a Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF), ainda não reconhece a Corrida em Trilhas/Trail Running como uma disciplina atlética, o que provavelmente só irá ocorrer em agosto de 2015, durante o Congresso Mundial em Beijing.

Desde sua fundação, a ITRA avançou em diversos pontos, sendo os principais: (1) proposta de uma definição internacional para corrida em trilhas, (2) elaboração de um código de ética e conduta (3)  estabelecimento de uma política de saúde e luta contra a doping, (4) estabelecimento de um ranking internacional baseado na gestão racional dos atletas de elite, (5) elaboração de um índice de rendimentos dos atletas em provas certificadas, e (6) definição de parâmetros e certificação de provas, contribuindo, desta forma, para a melhoria da qualidade das organizações e segurança dos participantes durante as competições.

Panorama Nacional
No Brasil, a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), filiada à Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF), é a única entidade de direção nacional do Atletismo brasileiro em todas as suas modalidades, incluindo pista e campo, corridas de rua, marcha atlética, corridas através do campo e corridas de montanha.

Todo o processo de organização de provas de Corrida em Trilhas no Brasil é muito recente e, definitivamente, ainda deve sofrer grande evolução nos próximos anos. Mas devemos ter em mente que as Corrida em Trilhas são realizadas em ambientes naturais e remotos em sua maioria, onde um resgate pode ser difícil e demorado, e o atleta deve ter consciência de sua real capacidade física, mental e técnica, a fim de selecionar cuidadosamente em qual prova se inscrever para não se colocar em risco desnecessário. Para que isto seja alcançado, os organizadores devem informar com antecedência e maior precisão possível, todas as informações referentes a prova em questão. 

Conforme sugerido pela classificação de Killian Jornet, estas informações relevantes e indispensáveis devem incluir (1) distância, (2) elevação e (3) dificuldade técnica. Devem incluir ainda: (4) os tempos máximos de cortes final e intermediários compatíveis com o percurso, (5) se há ou não pontos de resgate abastecimento e suas respectivas localizações (e, de preferência, o que será disponibilizados de alimentos) e (6) quais os itens são considerados essenciais e, portanto, obrigatórios para se completar a prova com segurança. 

Para provas com distâncias longas e alto grau de dificuldade técnica, os organizadores devem exigir uma experiência prévia do atleta, a fim de não colocá-lo em risco, bem como não prejudicar a corrida para os demais atletas, que podem ficar impedidos de passar em um trecho estreito, ou mesmo ter que parar para prestar socorro em caso de real necessidade. Esta experiência prévia normalmente é estabelecida pela ITRA através de pontuação atribuída após conclusão de competições em seus diferentes graus de dificuldade. As principais competições de Corridas em Trilhas mundiais, como Ultra Trail du Mont Blanc, Hardrock 100, Western States solicitam esta experiência prévia a fim de salvaguardar seus atletas, mas também de controlar a grande demanda de inscrições.

Enfim, para que as Corridas em Trilhas possam evoluir de maneira eficiente e consistente, ambos os lados, atletas e organizadores devem se comprometer a respeitar suas verdadeiras atribuições, aceitar suas responsabilidades, aprender com seus erros e consequentemente melhorar seus desempenhos em todos os sentidos.


domingo, 24 de maio de 2015

The North Face Endurance Challenge Brasil, decepção na montanha!

Quando soube que a primeira prova do circuito internacional Endurance Challenge Ultra Trail no Brasil seria nas Agulhas Negras, me empolguei e fiz minha inscrição para correr os 80km. Bom, acho que minha empolgação parou por aí. A partir deste ponto, começou uma série de falhas que culminaram com um total fracasso de organização. Mas, vamos aos fatos...

A empresa contratada para organizar o evento foi a TRC Trail Running Club, que organiza cinco provas de trail no sul do Brasil, entre elas a Maratona dos Perdidos. Nunca participei de nenhuma delas, mas sei que são consideradas boas provas.

Alguns dias antes da prova, recebi um comunicado da organização, informando uma alteração no percurso devido a um cancelamento na autorização da ICMBio, responsável pela administração dos parques nacionais brasileiros, que permitia o acesso ao Parque Nacional de Itatiaia. Após uma grande demora, foi divulgado o novo percurso, e o Ultra Trail Agulhas Negras se transformou no Ultra Trail Pedra Selada. A primeira decepção.

Como divulgado com antecedência no regulamento, haveria um tempo limite de 15 horas para conclusão dos 80km. Mas, quando recebi os tempos de cortes intermediários, percebi uma grande incoerência. A primeira metade da prova, onde havia o maior desnível e dificuldade, deveria ser completado em cerca de 7 horas (6:59:39 precisamente) no quilometro 38,5. E a segunda metade, os restantes 44,1km mais plano e rápido, deveria ser concluído em 8 horas. E, apesar das tentativas de argumentação com os organizadores, não houve alteração destes limites. Segunda decepção.



Houveram ainda alguns problemas de logística durante a entrega dos kits no Rio de Janeiro, que continham uma camisa The North Face produzida pela Trailevo, talvez mais uma uma incoerência, mas vamos desconsiderar esta parte.

Cheguei um pouco tarde na largada. Conferi os equipamentos e larguei no pelotão de trás. Comecei a acelerar, passando alguns corredores, mas logo entramos num single track noturno que tornava quase impossível fazer qualquer ultrapassagem. Para uma prova com tantos trechos de estrada de terra e asfalto, programar um single track logo no início da prova, e a noite, foi uma mancada. Terceira decepção.

Ainda consegui passar alguns corredores e tive que acelerar muito para alcançar o hard cut off #1, que alcancei com 3:49:39. O tempo limite era 4:20:31. Olhando meu GPS, observei uma divergência de quase 2km em relação ao mostrado pela organização. Provavelmente, mais de 50% dos corredores foram cortados neste momento. Uma prova em que a maioria dos atletas é desclassificada no primeiro corte tem, na minha opnião, um indiscutível erro de planejamento. Até porque, em momento algum foi solicitado alguma experiência prévia, comum em provas de muita exigência como o UTMB, por exemplo. Enfim, quarta decepção.

Uma subida forte e uma descida muito técnica e escorregadia dificultavam a corrida na Pedra Selada, não permitindo que eu baixasse muito meu tempo. Meu GPS marcou 38,5km com 6:53:06, onde deveria estar o hard cut off #2, mas não havia nada no local. Continuei descendo andando o mais rápido possível e alcancei o corte no km 41,30 com 7:29:06, recebendo a notícia de minha eliminação. Segundo a "desorganização", o tempo de corte era 6:59:39. Vários atletas reclamavam com os staffs, que reconheciam o erro, mas nada podiam fazer. Coube a mim, entrar no ônibus e assimilar minha primeira prova de montanha não cumprida, minha primeira desclassificação. E eu ainda estava bem fisicamente para continuar. Quinta e maior decepção.

Acompanhei a chegada dos atletas que conseguiram concluir o desafio e ainda relataram falhas inaceitáveis nas estações de abastecimento. E a prova acabou finalizando com uma distância total de quase 90km.

Eu, particularmente, nunca participei de uma prova tão mal executada. Falhas de planejamento, distorções de distância, cortes indevidos, falhas de abastecimento, excesso de trechos de estrada. Após tantos erros, os atletas que reclamaram, receberam indiferença. Os comentários negativos a organização pelas redes sociais foram simplesmente deletados. Foram muitos equívocos no pré-prova, durante e pós-prova. A The North Face deveria seriamente rever sua estratégia de provas no Brasil.

Devemos sim aprender com nossos erros. As provas de trail running no Brasil ainda são muito recentes e tem muito para evoluir. Mas os atletas devem entender que só porque o trail running é considerado uma competição bruta, no sentido de rusticidade, não significa que devem se submeter a qualquer tipo de situação. Falhas de organização acontecem e fazem parte natural deste processo evolutivo. Não se trata simplesmente de treinar mais ou menos, organizadores devem fornecer informações claras e precisas para então exigir desempenho.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Classificação das Corridas em Trilhas

Classificação das Corridas em Trilhas
Classificação por Distância, Elevação e Dificuldade técnica
TRADUÇÃO COMENTADA

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Kilian Jornet Burgada
Colaboradores: Giulio Sergio Roi, Fabio Menino, Marino Giacometti, Carlos García Prieto, Joe Grant, Christophe Boloyan.
Tradução para português e comentários: André Caúla


DESCRIÇÃO DAS CORRIDAS EM TRILHAS.
Corrida em trilhas ou Trail running é um esporte que envolve correr ou caminhar em um ambiente ao ar livre em um terreno natural, aproveitando as características geográficas de cada região (em geral, montanhas, desertos, florestas ...) e seguindo um caminho lógico que nos permite descobrir a região. A corrida em trilhas engloba práticas muito diferentes, dependendo de onde corremos, a distância e as características de cada região.

POR QUE FAZER UMA CLASSIFICAÇÃO?
É importante saber que a corrida em trilhas é um esporte  realizado ao ar livre, na natureza. Isso implica em uma dificuldade de se classificar as competições, pois cada corrida terá suas peculiaridades. Nós nunca vamos encontrar uma corrida idêntica a outra, e uma mesma corrida pode mudar muito de uma edição para a próxima, pois a especificidade e a dificuldade da prova é dada porque a montanha é um ser vivo, que está mudando e é diferente em cada lugar e em todas as épocas do ano.

Duas corridas com a mesma altura e distância podem ser muito diferentes umas das outras, quer pelo tipo de terreno, pelas condições climáticas ou pelas condições da montanha naquele momento, ou pelas diferentes superfícies, tais como a neve, lama ou um piso seco.

E, devido as características de cada corrida de montanha, pela elevação, clima, terreno, tecnicidade, quilometragem e outros fatores, é praticamente impossível estabelecer uma classificação. Os corredores de trilhas pensam principalmente sobre capacidades físicas ("Eu posso correr 20km, 80km ou 200km" ou "eu posso subir  4000m de elevação..."), mas raramente eles pensam sobre a dificuldade ("exige um pouco de escalada, exige saber como colocar o pés, pedras, neve ... "), a experiência ("preciso navegar fora de trilhas, preciso usar e saber usar um equipamento extra para me proteger de uma tempestade, preciso ficar no meio de uma montanha durante algumas horas à espera de um resgate ... ") e a exposição (se eu me ferir aqui será difícil o resgate," se eu cair daqui eu posso morrer ... ")

Achamos muito importante que todos os atletas entendam que a Corrida em Trilhas não é apenas sobre distância e altitude, mas sobre as habilidades técnicas e experiência. Nosso objetivo não é fazer somente uma classificação das corridas, mas fazer com que os atletas possam entender uma noção técnica sobre as corridas para sua própria segurança, e para não ir para onde eles não tem capacidade técnica.

Nós estávamos pensando em uma classificação de corridas baseada em dificuldade/exposição. Como há no montanhismo um sistema para fornecer orientação se você tem experiência suficiente para fazer um percurso (PD, AD, D, MD, ED1), nós projetamos um sistema de classificação para as Corridas em Trilhas que irá dizer às pessoas o que eles podem esperar de um determinado percurso.

1O Montanhismo possui diversos sistemas de classificação para escalada. Um sistema de classificação é uma ferramenta que ajuda um montanhista escolher uma subida que é, ao mesmo tempo desafiadora e dentro de sua capacidade. Em algumas circunstâncias, uma classificação irá indicar a quantidade e tipo de equipamento necessário. O sistema descrito no texto é o International French Adjectival System (IFAS), um sistema de classificação de escalada de montanha usado em muitos países europeus. Assim como a parte adjetiva do sistema britânico de classificação de escalada livre, o IFAS usa letras para descrever a dificuldade da via. São elas: F (fácil, facile), PD (pouco difícil, peu diffícile), AD (bem difícil, assez difficile), D (difícil, difficile), TD (muito difícil, trés difficille), ED (extremamente difícil, extrêmmement difficile) e ABO (abominável, abominable). Essas classes podem ainda ser quebradas adicionando-se sinais de mais ou menos (+ / -) a elas. Isso amplia a gama de escalas e permite que determinada via que até então não tenha se encaixado em classe alguma, encontre uma mais próxima (Fonte: Mountaineering: The Freedom of the Hills, Ronald Eng e Julie Van Pelt, 8a Edição, 2014).


CLASSIFICAÇÃO DAS CORRIDAS EM TRILHAS

Os fatos que diferenciam cada corrida em trilha podem ser agrupadas em três eixos:
  • Distância: quilômetros de corrida.
  • Elevação: metros de subida e de descida.
  • Dificuldade técnica: A exposição e dificuldade técnica do tipo de terreno. Considerando o risco de ferimentos ou morte, as habilidades técnicas para progredir em todos os terrenos, a auto-confiança necessária para estar em segurança por si próprio.


1. DISTÂNCIA: Podemos estudar a distância em um sistema métrico (distância em quilómetros) ou em uma forma fisiológica sobre a duração do esforço.
  • Curta: a necessidade de uma forte contribuição do metabolismo anaeróbio (principalmente láctico, mas também aláctico), a intensidade é superior e não inferior ao limiar anaeróbio. Tempo máximo: a partir de alguns segundos até uma hora.
  • Média: necessidade de uma mistura de metabolismo aeróbio e anaeróbio, para cima, mas não maior do que o limiar anaeróbio, ou entre os limiares aeróbio e anaeróbio. Tempo: entre uma hora e algumas (3-4) horas (nós temos que decidir considerando a relação entra a capacidade aeróbica  e tempo).
  • Longa: necessita apenas do metabolismo aeróbio, sempre abaixo do limiar aeróbio. Tempo: a partir de 4 horas, mas inferior a 16 horas.
  • Ultra-longa: intensidade média sempre abaixo do limiar aeróbio, mas a corrida longa o suficiente para alcançar um nível mínimo de privação do sono (que afeta o cérebro e as funções cognitivas). Assim, considerando-se uma média de 8 horas de sono por dia, podemos definir "a privação de sono", quando o desempenho dura mais do que 24-8 = 16 horas.

Tabela 1. Classe D, Distância
Nível
Distância
Tempo
Exemplos
Curta
1-15km
20'- 1h
Vertical Kilometers, Mount Marathon, Tjon Dixence
Média
20-42km
2-4 horas
Dolomites SkyRace, Zegama, Ultraks, Sierre Zinal
Longa
50-100km
5-16h
80 Chamonix, Transvulcania, The Rutt
Ultra
mais de 100 km
> 16h
UTMB, Hardrock 100, Diagonale des Fous
Múltiplos Estágios
Múltiplos dias

Transalpine Run, Transrockies, 4 trails

2Existem basicamente duas formas para obtenção de energia: pelo metabolismo anaeróbio e pelo metabolismo aeróbio. Essas duas vias formam uma combinação de sistemas de energia que abastecem o combustível necessário para o exercício, de acordo com a duração do exercício e sua intensidade, determinando qual das vias será utilizada. O Metabolismo Anaeróbio é o processo químico e fisiológico que o corpo faz para produzir energia sem a utilização de oxigênio, que possui dois mecanismos, Alático e Lático. No Mecanismo Alático (Fosfocreatina) ocorre a hidrólise da creatina-fosfato, uma molécula existente no músculo esquelético, e liberação de energia, que é utilizada na contração muscular. Este caminho não requer nenhum oxigênio e não se forma ácido lático. Como as reservas de creatina fosfato no músculo são muito limitadas, o corpo vai passar para o metabolismo aeróbio ou anaeróbio (lático) para continuar a gerar energia para o exercício. Esta via está envolvida em exercícios rápidos ou situações de transição imediata, como uma corrida de 100 metros rasos ou musculação. O Mecanismo Lático (Glicogenólise) forma energia a partir do glicogênio armazenado no músculo sem a utilização de oxigênio. Consite na progressiva degradação do glicogênio. A vantagem da via lática é ser mais potente, mas possui como desvantagem a produção de ácido lático, após alguns segundos. Esse mecanismo é usado para exercícios de alta intensidade e não duram mais do que alguns minutos antes de o ácido láctico atingir um limite conhecido como o limiar de lactato que provoca dores musculares, sensação de queima do músculo e fadiga, tornando difícil manter tal intensidade. No Metabolismo Aeróbico são sintetizadas moléculas de ATP necessárias para a atividades de longa duração. Ele usa o oxigênio para converter os nutrientes (carboidratos, gorduras e proteínas), para ATP. Este sistema é um pouco mais lento do que os sistemas anaeróbios, dependendo do sistema circulatório para o transporte de oxigênio para os músculos para tal produção de energia. Utilizado principalmente durante exercícios de resistência, que é geralmente menos intensa e pode continuar por longos períodos de tempo. Seu limiar é a quantidade de oxigênio transportado para as mitocôndrias.

2. ELEVAÇÃO: Consideramos a elevação em metros ou pés, tendo o ganho de elevação no caso em que a corrida tenha a mesma quantidade de subidas e descidas, e especificando a ascensão e descensão no caso de corrida de A para B.

Tabela 2. Classe E, Elevação
Nível

Exemplo
Corrida de Uphill
Apenas elevação positiva
Vertical Km, Opp races, Pikes peak ascent
Corrida de Downhill
Somente elevação negativa

Corrida de A a B
A linha de largada e chegada não são no mesmo ponto, portanto há diferenças + e – de elevação
WS100, Valmalenco Valspochiavo
Corrida Volta
A linha de largada e chegada são no mesmo ponto, portanto não há diferenças + e – de elevação
UTMB, Zegama, KIMA ...



3. DIFICULDADE TÉCNICA E EXPOSIÇÃO: Levando em consideração o exemplo de sistemas de classificação para rotas alpinas no Montanhismo, fizemos uma classificação para as Corrida em trilha.

Tabela 3. Classe T, Dificuldade Técnica e Exposição
Nível
Habilidades técnicas
Exposição
Exemplos
I
Terreno fácil, não precisa usar as mãos. Trilhas limpas, em baixas montanhas.
Sem riscos ou pequenas lesões
Sierre Zinal, Pikes Peak, Western States
II
Terreno fácil, não precisa usar as mãos. Algumas partes rochosas ou trilhas de montanha, precisa ter um baixo conhecimento em montanha.
Risco de lesões e precisam de ser auto-confiante em baixa montanha (esperar para evacuar em caso de acidente, não se perder em situação de pouca visibilidade, saber seguir trilhas, saber sobre tempestades...)
UTMB, Zermatt Ultraks, Giir di Mont, Zegama
III
Terreno dificil, rochas, neve, saída das trilhas. Necessidade de usar mãos. É necessário ter conhecimento de alta montanha.
Risco de ferimentos ou lesões graves. Precisa de autonomia em condições duras de montanha.
Diagonale Des Fous, 80 Chamonix, Dolomitas Skyrace, Hardrock 100, The Rutt
IV
Terreno dificil, rochas íngremes, neve dura, pequenas escaladas e uso de cordas. Conhecimento de alta montanha.
Risco de ferimentos ou lesões graves. Precisa de autonomia em condições duras de montanha.
Graduação “F“ no alpinismo. Sentiero delle Grigne, Elbrus race
V
Terreno dificil, geleira, escalada em rocha, até grau III de escalada alpina.3 Precisa de conhecimento de alta montanha. O uso de crampons ou equipamento técnico.
Risco de ficar seriamente ferido ou morrer em caso de cair. Precisa ter conhecimento de alta montanha e ser independente para ficar seguro em todas as condições.
Graduação “PD“ no alpinismo. KIMA, Lenin race, els 2900, Tromso Skyrace

3O Sistema de Classificação de Escalada Nacional, desenvolvido nos Estados Unidos, atribui notas para descrever a dificuldade geral de uma escalada alpina ou escalada longa, em termos de tempo e dificuldade técnico. O grau III requer um dia para fazer a parte técnica, em qualquer nível dificuldade técnica.

Outros fatores ainda podem influenciar a Classe T:
  • Distância em terreno exposto, a fatalidade em caso de queda.
  • Um caminho longo ou dificuldade de acesso para resgate ou evacuação em caso de desistência ou acidente.
  • Um baixo número de postos de socorro ou controles, a necessidade de navegação, e ter autonomia durante longos períodos nas montanhas.
  • A qualidade do terreno, como pedras soltas, neve congelada...
  • As condições meteorológicas no local da prova, como média, nas datas e área.
  • Os conhecimentos de montanha não são apenas sobre a altitude: alta montanha (geleira) pode estar a 1.000m na Escandinávia, 3.500m nos Alpes ou 5.000m no Himalaia ou dos Estados Unidos.



Altitude
As corridas em trilhas são frequentemente consideradas um esporte de montanha e, neste sentido a altitude deve ser considerado a partir da classificação proposta por Bartsch e aceite pela UIAA (União Internacional das Associações de Alpinismo). Em provas em altitudes acima de 3.001 metros, sugere-se especificar, conforme tabela abaixo.

Tabela 4. Classe T, Altitude
Altitude
A partir de (m)
Para (m)
AMS
Especificação
Leve
Nível do mar
500
Não
Não
Baixa
501
2.000
Normalmente não
Não
Média
2.001
3.000
Possível
Não
Alta
3.001
5.500
Possível/provável
Especificar "alta altitude"
Extrema
5.501
8.848
Provável
Especificar "altitude extrema "

Mal da Montanha Agudo4 (Acute Mountain Sickness, AMS): o mal da montanha agudo pode evoluir para Edema Pulmonar da Alta Altitude (EPA) ou Edema Cerebral de Alta Altitude (HACE), que são potencialmente fatais. Também em alta altitude, o tempo de recuperação diminui, as decisões tomadas são menos lúcidas e temos menos precisão nos movimentos.

4O mal da montanha, também conhecido como doença das alturas ou hipobaropatia, é uma condição patológica relacionada com os efeitos da altitude nos humanos, causada por exposição aguda à baixa pressão parcial de oxigênio a altas altitudes. Ocorre normalmente acima dos 2400 metros de altitude. Os sintomas geralmente manifestam-se de seis a dez horas após a subida e, geralmente, desaparecem em um ou dois dias, mas ocasionalmente podem se desenvolver condições mais graves. Os sintomas incluem fadiga, cefaleia, falta de apetite, náuseas , vômitos, tonturas e distúrbios do sono. Os esforços agravam os sintomas.

4. CONCLUSÕES

Os organizadores devem decidir a classificação da corrida, em função das dificuldades técnicas e exposição ao longo do percurso.
Os atletas devem entender quais são as suas capacidades técnicas e experiência para tomar parte em uma corrida mais ou menos técnica. E para treinar e melhorar esta capacidade de formação antes de tomar parte em uma corrida mais técnica (sem contar os fatos relacionados à distância e elevação).
As Federações devem controlar que as corridas sob o seu calendário estão bem classificadas. Uma sobre-classificação pode causar mal-entendidos, confusões e afetar a segurança dos atletas.

COMO DESCREVER UMA CORRIDA?

Nome da prova, distância, elevação, dificuldade técnica e altitude

Elevação:                      Uphill, m+
Downhill, m−
Volta, m
De A para B, m+ m−

Dificuldade Técnica:   Classificação de I a V

Exemplos:
Zegama 42km 2600m II
UTMB 160km 9800m II
WS100 160km 4000m+ 6000m- I 
Troffeo KIMA 49km 4000m V
Zermatt Ultraks 46km 3600m II
KV Chamonix 4km 1000m+ I
Sierre Zinal 32km 2000m+ 800m- I
80K Chamonix 90km 7000m III
Pikes Peak M 42km 2200m I High altitude
Hardrock100 160km 11000m III High altitude
Lenin Race 20km 3000m+ V extreme altitude

Tabela 5. Exemplos de Classificação.
Distância
/Técnica
Curta
Média
Longa
Ultra
V

Lennin Race, Tromso SkyRace
Troffeo KIMA
Els 2900
IV
Elbrus Race, Idiatrod Trail invitational
Sentiero delle Grigne

Echapée Belle, Ronda dels Cims
III

Dolomites Skyrace, Climathon, Sentiero 4 luglio
80k Chamonix, Carros de Foc, Ice Trail Tarantaise
Tors des Geants, Hardrock 100
II
KV Canazei, KV Manigod, Mount Marathon, Feel races
Giir di Mont, Zegama, Valmalenco, Limone Skyrace
Ultraks, Cavalls del Vent, CCC, TDS
UTMB, Diagonale des Fous
I
KV Chamonix, Mountain running, Tjon Dixence, Grand Ballon, Stralivigno, Scaala Opp
Sierre Zinal, Mont Blanc Marathon, Pikes Peak, Mont Fuji Race, Jungfrau Marathon
Les Templiers, SF 100, Transvulcanica, Speedgoat, UROC
Leadville 100, WS100



A SITUAÇÃO ATUAL
O alpinismo e o atletismo estão no esquema a fim de situar a classificação em relação a outras disciplinas.


Alpinismo / Alpinrunning: um esporte global, usa classificação própria (PD, AD, D, TD, ED), não utiliza esta classificação.
Trail Running: um esporte global, corrida ao ar livre em terreno natural. Dentro, podemos encontrar algumas disciplinas:
Skyrunning: Em trilhas técnicas, altitude e alta montanhas, do nível I ao V.
Fellrunning: Em trilhas técnicas, normalmente fora trilhas em terreno rochoso ou grama, específico do Reino Unido, do nível I ao V.
Quilômetro Vertical: Somente subida/uphill, do nível I ao V.
Corrida de Montanha: Em trilhas fáceis ao ar livre. Nível I de dificuldade técnica.
Urban Trail / City Trail: Em espaços urbanos, em terreno artificial, com elevação e obstáculos artificiais. Nível I de dificuldade técnica.
Atletismo: um esporte global, em execução nos ao ar livre ou indoor, em terreno artificial. Só o Cross-country ocorre em terreno natural. Dificuldade técnica será 0.


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