terça-feira, 26 de abril de 2016

La Mision 2016: Episódio 2 - A krypnonita de Ashbel.

Por André Caúla

Etapa 2 - Villa Traful até Puerto Manzano (110km)

O sol começava a aparecer no horizonte. Caminhávamos por um estrada de terra que beirava o Lago Traful. Um belo amanhecer. Passamos por lindas casas de madeira, um porto repleto de barcos e lanchas, diversos acampamentos onde as pessoas começavam a despertar. Seguimos nesta estrada por cerca de 9 quilômetros. Após cruzar os arroyos Media Luna, e Cataratas viramos a esquerda e começamos a subir uma trilha pela floresta. 

Ficamos um bom tempo subindo aquele caminho que acompanhava um rio de águas cristalinas e suas diversas quedas d`água. Dava vontade de parar para mergulhar. Mas as paradas eram breves e se limitavam as necessidade fisiológicas ou para passar mais vaselina, bepantol e colar esparadrapos nas feridas. 

A cada travessia de rios, tentávamos manter os pés secos, o que foi impossível no dia anterior. Fazíamos malabarismos tentando descobrir rotas seguras ou caminhos alternativos, simplesmente para não molhar os pés. Ashbel desistiu rapidamente desta estratégia e meteu os pés. Eu e Roger conseguimos adiar este momento até um ponto em que não houve mais possibilidade. Seguimos então todos com os pés molhados. A associação de tênis/meias/pés molhados, mais areia/pedras, mais longos percursos de subida e descida era implacável e o resultados eram bolhas grandes e dolorosas.  

Avistamos adiante, duas atletas argentinas que mantinham um bom ritmo. Lembrei delas, estavam no ginásio na noite anterior e haviam saído mais cedo. Ultrapassamos. Seguimos sozinhos muitos quilômetros de floresta até que avistamos uma imponente montanha. O Roger disse que era o Cerro O`Connor e que era nosso destino. Eu duvidei. Me parecia a direção contrária. Eu não poderia estar mais errado. Chegamos a um posto de controle. Os staffs nos avisaram que ficaríamos por um longo período sem acesso a qualquer fonte de água. Aquele era o último local de abastecimento até o Camp 2. Para acessar o rio tinha que descer muito. Olhei para baixo, não consegui ver nada. Mal escutava o som das quedas d'água. Decidi ir com a quantidade de água que tinha. Não era muito, mas o mínimo necessário. Começamos então uma longa subida. A floresta desapareceu, dando lugar a areia e pedras. Um vento frio e constante começava a incomodar. De repente, eis que surgem as argentinas. Subindo numa cadência invejável, usando com extrema habilidade seus bastões. Meu orgulho masculino ferido me obrigou a acelerar e tentar acompanhá-las. Impossível. Assisti frustrado elas desaparecerem no horizonte. 

A imagem delas distantes, me apontavam o caminho que eu deveria seguir. A imagem era ao mesmo tempo assustadora e extraordinária. Caminhar naquela íngreme montanha, dava a sensação que qualquer queda seria fatal. Ashbel andava envergado. Parecia um barco a vela quando bate um vento lateral forte. Estava assustado, mas determinado a seguir, superando seus medos. Sem sombra de dúvida, era a montanha mais incrível deste desafio. Cerro O`Connor. Seguimos por suas arestas e seus sete cumes. Parecia infinito. O sentimento era simplesmente indescritível. Mais adiante, um acesso escondido atrás de um dos cumes, reservava uma surpresinha. Uma descida inclinada. Na verdade era praticamente um buraco. Com areia e pedras. Soltas. Uma corda amarrada. Nenhum staff. Nada. Cheguei primeiro. Segurei a corda, com medo. E desci. Fiquei aguardando meus companheiros. O vento forte abaixou minha temperatura. Me tremia de frio, apesar do sol forte brilhando no céu. Resolvi continuar e procurar um local mais protegido. Estava preocupado com aquela travessia e a corda. Será que o Ashbel conseguiria passar. Felizmente, minha aflição não durou muito, eles haviam passado nem maiores dificuldades.  Um posto de controle adiante anotou nossos números.

Ainda no alto da montanha, Roger estava preocupado com a quantidade de água restante e o tempo que ainda teríamos antes de anoitecer. Aceleramos. Já era possível ver a floresta novamente. O vento forte começava a desaparecer, assim como o sol. Agora era trilha com descida. Começamos a correr. Reencontramos as argentinas. Desta vez, ficaram para trás. Nosso ritmo estava muito forte. Rapidamente chegamos a uma estrada de terra. Nossos pés estavam muito castigados. Pela primeira vez, Ashbel pediu para caminhar. Em uma mangueira furada em frente a uma casa de madeira típica da região, nos refrescamos e abastecemos com água. Quando alcançamos uma estrada de asfalto, percebemos que Ashbel havia ficado para trás. Roger resolveu esperá-lo, enquanto eu continuei caminhando lentamente.

Sozinho, segui pela lateral da rodovia. Já estava bem escuro. Acendi minha headlamp. Adiante, a luz de um carro estacionado do outro lado da estrada. Ao passar, recebi os cumprimentos, palmas e palavras de incentivo em espanhol. Provavelmente familiares de algum atletas argentino. Agradeci e segui em frente até desaparecerem do meu campo de visão. Não havia nada a frente. Também não tinha mais nada visível atrás, nenhuma luz. Onde eles estavam? Estaria tudo bem? Será que eu não observei alguma entrada? Deveria voltar? As dúvidas eram muitas, mas eu seguia em frente, como se meu corpo não estivesse mais sob meu controle. Continuei. Ao olhar para trás, vi um luz. Queria que fossem duas, mas era uma só. Se aproximava rapidamente. A minha frente uma placa, discreta, do outro lado. Atravessei a estrada, quando a luz me alcançou. Era o Roger sozinho. O que houve? Perguntei. "O Ashbel está cansado e estressado, nestes momentos é melhor deixá-lo sozinho!", respondeu.

O Camp 2 estava a 500 metros. Puerto Manzano. Eram cerca de dez da noite. Quando chegamos, novamente a cena de corpos estirados pelo chão. Desta vez, não era um ginásio, mas um deck de madeira com vários níveis a beira do lago Nahuel Huapi. A céu aberto. Repetimos o ritual de averiguação dos itens obrigatórios. Em seguida, entrei imediatamente em uma lanchonete e pedi uma pizza com coca. Esta é provavelmente a única situação que me permito tomar coca. Nossa, como desce bem. Roger sentou ao meu lado. Olhei para a mesa ao lado e vi que deixaram duas fatias de pizza. Pensei em pegá-las. Comentei com o Roger e pela sua reação percebi que tinha ligado meu modo "Sobrevivência", uma mistura de aventureiro com mendigo, tipo um corredor de aventura.

Roger com um semblante bem preocupado saiu para procurar o Ashbel. Sai pouco tempo depois. Ao encontrá-lo, conversamos, ele estava com muitas bolhas e assaduras. Começamos a arrumar nosso acampamento. Escolhemos um canto sobre o deck de madeira. Descobrimos que havia água quente no banheiro masculino. Em sequência, Roger, eu e Ashbel resolvemos tomar um banho. Mas na vez do Ashbel, a água quente acabou. Tomou banho frio. E como estava frio naquele local. Mesmo dentro do saco de dormir, eu tremia. Dor, cansaço, a luz do poste que batia em nossa cara, vento, outros atletas conversando alto e o pior de tudo, uma música alta do Jack Johnson e suas melodias todas idênticas. Inervante. Roger fez um casulo, onde não se sabia onde era pé ou cabeça, e dormiu como uma criança em seu berço aquecido. Eu, novamente, dava breves cochiladas. A cada vez que abria o olho, via o Ashbel em uma posição diferente. Desta vez, meu pensamento se fixava em "Tomara que ele não desista!" Nós três nos conhecemos a um bom tempo, programamos e treinamos juntos com muita dedicação para esta prova. Sabia o quanto este desafio seria difícil e que qualquer desfalque no grupo seria impactante. Mas o Ashbel, até aquele dia parecia inabalável, soberano, o mais veloz, o mais leve. Cantava enquanto corria. Sorria. Recitava mantras. Esbanjava alegria. Não, definitivamente não poderíamos perdê-lo.

Depois de algumas horas tentando, sem muito sucesso, relaxar, perguntei pro Ashbel: "Você está bem? Vamos continuar?". "Estou com os pés doendo e assado, mas disposto a continuar", respondeu. Roger acordou assustado com a possibilidade de uma desistência. Eram duas e pouco da madrugada. Noite escura. Jack Johnson continuava no microfone. Incansável.   Decidimos continuar. Nos arrumamos, comemos  e partimos pela escuridão para a etapa final.


















terça-feira, 12 de abril de 2016

La Mision 2016: Episódio 1 - A perdição de Caúla.

Por André Caúla

O desejo por participar desta prova era bem antigo. Sempre me senti atraído pela sua localização (sou apaixonado pela Patagonia), seu formato de semi-autonomia e sua distância desafiadora. Após concluir com sucesso os 100km do CCC no Mont Blanc, me senti seguro o suficiente para encarar este desafio. Me acompanhando nesta aventura, repetimos a mesma formação do Half Mision Serra Fina 2013, meus grandes amigos Roger e Ashbel.  Também me acompanhava nesta missão, meu amigo e companheiro de farda, Cristiano Marcelino.

Com esta formação chegamos a pequena cidade de Villa la Angostura. Durante o transfer do aeroporto de Bariloche até Angostura, conhecemos o simpático Nestor Moussampez, argentino residente na região, que com uma tatuagem da altimetria da prova no antebraço e algumas participações no La Mision, nos forneceu algumas orientações sobre a corrida. Vale dizer que estas informações acabaram por nos confundir mais em relação ao nosso planejamento inicial. 

Pegamos nossos kits, composto de camisa, buff, numeral (Coincidentemente repeti mesmo 33 do Half Mision 2013) e duas sacolas onde colocaríamos material para ser enviado para os kms 65 e 110. Somente o essencial, simples assim. Como em 2013, o patrocinador do evento, a Marmot não se deu ao trabalho nem de fabricar a camisa, nem mesmo de oferecer ao vencedor algum prêmio.

Etapa 1 - Villa La Angostura até Villa Traful (65km)

A largada ocorreu pontualmente as 11 horas, e todos os atletas do Half  e La Mision seguiam juntos acompanhando o "carro madrinha" durante o trecho urbano do percurso. Poucos quilômetros depois, o carro parou e entramos em um single track subindo pela floresta em direção ao col Colorado.

Há esta altura o visual já era incrível. Paramos para fotografar e seguimos adiante ainda em grupo. Começamos então uma descida em direção ao Cajon Negro. Fiquei um pouco para trás, e resolvi acelerar aproveitando a descida. Em um determinado momento, cerca do km 10, eu virei a esquerda em velocidade. Me orientava por umas marcações vermelhas pintadas nos troncos de árvore. Percebi, que tinham poucos atletas neste momento e desconfiei que tinha algo errado. Neste momento, ouvi um grito de um corredor logo atrás de mim. Parei e caminhei ao seu encontro. O argentino me disse que desconfiava que havíamos pego o caminho errado. Decidimos voltar. Após subir alguns minutos, nos encontramos com um grupo de três atletas, que afirmaram ter certeza absoluta de que este caminho estava correto. Voltamos a descer, agora com um grupo maior. Chegamos em uma bifurcação com placas, cujos nomes escritos, eu não conhecia, nem tinha ouvido durante a palestra técnica. Uma das placa apontava para Villa La Angostura. Resolvemos voltar. Novamente. Minha cabeça pirou. Aquele ânimo todo deu lugar a uma depressão. Caminhava lentamente, sem saber se seguia para o rumo certo. Aonde estariam meus parceiros? Será que a prova acabaria ali para mim?

Encontramos uma fita de marcação da prova. Ufa, estava de volta. Ainda chateado. Tinha corrido cerca de 2 ou 3km a mais e perdido cerca de uma hora e pouco. Tentando me concentrar, comecei a subir o Cerro Buol. Olhando para frente e para cima, vi que o caminho era uma parede de pedras soltas e que cada atleta escolhia qual o melhor itinerário para chegar ao topo. Tracei uma reta imaginária e segui por um caminho que ninguém trilhava.


Ouvi um grito muito ao longe com uma voz familiar. Parecia o Roger. Olhei para cima, mais não reconheci ninguém. Eram vários atletas muito distantes. Mais um grito me pedindo para levantar as mãos. Acenei. A felicidade havia voltado. Havia reencontrado meus parceiros. Acelerei, dentro do possível e os alcancei no topo da montanha. Sentamos, acompanhados de um cachorro que seguia os corredores. Fizemos um lanche e conversamos sobre meu erro. Ofereci metade do meu sanduíche para o cão. Roger gritou, me alertando. E o cão quase mordeu os meus dedos. Felizmente foi só um susto. Havia feito isso também com ele.  Demos água para o cachorro. O vento estava muito forte, e decidimos continuar. Seguimos pela crista da montanha, descendo em direção da floresta.

Dentro da floresta, cruzamos o rio Voruco, e neste ponto, nos separamos dos atletas inscritos nos 80km. Voltamos a subir ainda na floresta. De repente, a mata acabou e começamos a subir o Cerro Newbury. Era a primeira edição do La Mision que incluía esta montanha. Simplesmente assustadora. Além da inclinação terrível, o terreno era uma mistura de areia e pedras em um ataque frontal, que nos obrigava a escorregar um passo atrás a cada dois adiante. Abaixei a cabeça e, com o ritmo dos bastões, enfrentei o monstro. Segui na frente e alcancei o cume. O vento estava muito forte. Me sentei, enquanto esperava meus parceiros e aproveitei para comer e colocar um agasalho. Roger chegou e se sentou ao meu lado. Não estava bem, visivelmente abatido. Havia falhado na alimentação. O frio estava intenso e resolvemos continuar. Descemos em direção da floresta abaixo.

Um trecho de floresta interminável. Acompanhando e cruzando diversas vezes o rio Minero. Seguimos assim, trotando e caminhando, com os pés encharcados, em uma fila indiana juntos aos outros atletas. O Ashbel estava ótimo, alegre e bem disposto. Dava inveja.




O céu começou a escurecer, quando por volta do km 45, a carreata se desfez, e começamos sozinhos a subir o último desafio desta primeira etapa, o Cerro Piedritas. Fiquei um pouco para trás, acompanhando meus parceiros a distância. Estava cansado. Chegamos ao cume já de noite. Roger e Ashbel aceleraram na descida. Tentei acompanhar, mas não conseguia. Meus joelho esquerdo doía. Continuei caminhando pela escuridão. Sozinho. Vários atletas me passavam, e eu nada podia fazer. Avistei a civilização iluminada distante na escuridão. Meu ritmo era lento e inconstante. Vi um atleta parado adiante. Na verdade, um ponto de luz imóvel adiante. Era o Roger me esperando. Avancei ao seu encontro. Quando cheguei, comecei a falar que sentia o joelho, estava cansado e que ele poderia seguir adiante, já que eu levaria mais tempo para descer a montanha. Levantei a cabeça. Não reconheci meu amigo. Não era o Roger. Somente um atleta olhando para mim com a cara estranha. Continuei. Cheguei a uma estrada de terra. Sinal de civilização. Sentia muito frio. Sentia fome também, mas não queria parar antes de atingir meu objetivo do dia. Levantei a cabeça e vi um ginásio.

Finalmente, Villa Traful, 65km. O relógio marcava duas e pouco da manhã. Entrei no ginásio. Corpos estirados pela quadra. A staff conferiu meu número, me entregou minha sacola do Camp 1 e me solicitou que mostrasse o saco de dormir e o bivaque. Itens obrigatórios. Meus parceiros dormiam no canto da quadra. Tirei meu tênis. Peguei água quente e preparei a comida. Calcei uma meia seca. Entrei no saco e tentei dormir. Algumas breves cochiladas. Sentia o joelho. Sentia muito desconforto, deitado naquele chão de cimento frio e duro. Os pensamentos vagavam pela minha cabeça. Apesar de todas as dificuldades iniciais. Estar perdido, aflito sem saber se chegaria ao meu destino. Após meses de treinamento e dedicação, consegui alcançar a primeira meta. Uma sensação agradável de dever cumprido me dominava. Junto com uma preocupação do que viria a seguir. Do futuro iminente. Fiquei assim, num pensamento semi-sonolento, por quase duas horas. Até que me despertei. Ashbel também estava acordado. Roger levantou em seguida. Nos arrumamos e começamos a segunda etapa do La Mision.





















domingo, 3 de abril de 2016

Meu pé esquerdo

Por Marcelo Krieger


*Este é um relato de Marcelo Krieger. Nos conhecemos em 2011, durante os treinos para nossa primeira participação no Cruce. Rapidamente nos tornamos grandes amigos. Uma pessoa excepcional e um atleta forte e dedicado. Descobriu recentemente um problema sério decorrente dos fortes treinos de corrida.  Aqui está seu relato para que sirva de exemplo para outros corredores. Nosso desejo sincero de que se recupere prontamente para subirmos as montanhas juntos novamente.  André Caúla


Dizem que uma única pane não derruba um avião. São necessárias pelo menos três. Tempo ruim, falha em turbina e erro de piloto não são capazes de sozinhas abater uma aeronave. Porém, juntando uma falha de piloto e turbina em uma tempestade cria-se uma condição que pode ser fatal.

Foi algo assim que aconteceu comigo. Tenho pé plano. Pisada pronada é marca registrada de infância. Só isto não me levaria para uma mesa de cirurgia. Assim como lesões ligamentares mal cuidadas e a decisão de participar de provas de trilha com treinos acumulando mais de 100km na semana, individualmente provavelmente não teriam me derrubado.

Mas, tudo isto veio junto e no momento estou com o pé no gesso, recuperando-me da primeira cirurgia das duas que terei que fazer. Nesta etapa, meus ossos deformados foram colocados de volta no lugar. Os tendões rompidos estavam tão ruins que tiveram que ficar para uma segunda etapa, quando farei enxertos para repor os tecidos estragados que carrego hoje.

Mas, como cheguei a isto?

Que eu me lembre, os primeiros sintomas começaram no primeiro semestre de 2010. Treinos de natação com um pé de pato de lâmina dura me causaram inflamação nos tendões do pé e foi quando as dores começaram. Mas, era suportável e fui em frente. A partir daí, passei a ter recorrência nas dores. Mas continuava suportável e continuei indo em frente.

No segundo semestre de 2011, descobri o Cruce de Los Andes. Os treinos aumentaram, mas ainda até aqui estava tudo bem. Fiz o Cruce em fevereiro de 2012. Lá descobri o UTMB e resolvi fazer a CCC. Para isto, precisava de dois pontos e os obtive em setembro, correndo a Run Rabbit Run 80km, no Colorado.

Em janeiro de 2013 tive a felicidade de ser sorteado para a CCC. Meus treinos passaram a incluir uma sessão semanal de trilhas com 3, 4 e até 5 horas de duração. Também como parte da preparação, fiz os 80Km do XTerra de Ilha Bela. Essa prova me deixou muito dolorido, mas faltando apenas 2 meses para a CCC, continuei em frente.

Só quem já passou por alguma das provas do UTMB tem noção do que significa participar de uma delas. Todos os adjetivos empalidecem perante o ambiente, a paisagem, a organização, o astral e o espírito da última semana de agosto em Chamonix. Completei a prova em pouco menos de 25 horas, tendo corrido na primeira metade (55km) e na maior parte do tempo caminhado a segunda metade. Completei. Extremamente feliz. Mais ciente que algo estava muito errado com meu pé.

Ao retornar fiz uma ressonância. Meu pé estava desabado, mas a interpretação da imagem ainda não demonstrava que o tendão estivesse rompido. Busquei me recuperar como manda o figurino. Repouso, seguido de volta progressiva à atividade, acompanhado de fisioterapia, acupuntura, osteopatia e o que mais houvesse para voltar a ficar bem. Novamente de forma retrospectiva, deve ter sido em uma sessão de exercícios de fortalecimento na academia, que houve a ruptura definitiva do meu já bastante combalido tendão tibial posterior.

Cancelei minha ida ao Cruce em fevereiro de 2014. Fiz uma péssima meia maratona de Nova York em março e voltei decidido a me recuperar.

Um parêntese importante. Não pensem que fiz tudo isso de forma (totalmente) irresponsável e estúpida. Consultei médicos. Mais de um. E eles me disseram o seguinte: se parasse de correr (impensável) pararia de doer. Se operasse, não voltaria a correr (impensável). E se continuasse, doeria mas não pioraria. Então, a decisão estava tomada. Seguir em frente.

De abril de 2014 em diante, minha rotina passou a incluir fisioterapia diária. Fui me recuperando (pelo menos eu achava que estava me recuperando). Fiz os 50km do XTerra de Mangaratiba em agosto no mesmo tempo que havia feito dois anos antes. Fiz os 80Km da Harricana de Charlevoix em setembro em 13 horas. Fiz a meia maratona do Halloween em Miami em outubro e finalizei em 3o lugar na categoria com 1h33m. Em janeiro de 2015, fiz o Desafio do Dunga. Após, os 5km na quinta-feira, os 10km na sexta-feira, a meia maratona no sábado, completei a maratona no domingo em 3h33, ficando em décimo lugar na categoria e obtendo o tempo necessário para me qualificar para a maratona de Boston. E para completar o rush, mais um Cruce. Eu e meu primo Joel, conquistamos o segundo lugar nesta edição, na categoria dos ultra velhos, com a soma de idade superior a 110 anos. 

Depois de tudo isso, meus planos eram bastante mais singelos. Em junho acompanhei minha filha na sua primeira meia maratona. Em agosto fiz a OCC, a prova mais curta do UTMB. Depois disso, preparação para a maratona de Boston.

Ao voltar da OCC, novamente pensei em me recuperar como manda o figurino. E aqui a coisa desandou de vez. Ao longo de 2015, comecei a perceber meu calcanhar desviado para o lado de fora. Eu não sabia, mas o que me parecia apenas algo ligamentar, era na verdade uma deformação óssea. As dores aumentaram, a ponto de me impedir de treinar. Em dezembro joguei a toalha. Fiz nova ressonância, que desta vez deixou claro o rompimento do tendão. Cancelei minha ida a Boston. Procurei os cirurgiões e comecei esta nova jornada.

Com tudo o que realizei nestes dois anos e a perspectiva que me foi apresentada de que eu não voltaria a correr caso tivesse feito diferente, eu não me arrependo do que fiz e como fiz. Mas os tempos agora são outros e parado eu já estava. Logo, o caminho tinha que ser diferente.

Como eu disse no começo, esta primeira etapa consistiu na correção óssea. O calcanhar foi cortado (osteotomia), colocado na posição certa e fixado com dois parafusos. Para completar foi feito um alongamento da lateral externa do pé, através de um enxerto ósseo.

Estou escrevendo isso com quinze dias de operado. Tirei os pontos há dois dias e estou com o gesso, que me acompanhará pelo próximo mês. O iWalk 2.0 tem me ajudado muito nesta fase. Não dependo das pessoas para tudo. Posso me movimentar livremente e já na segunda semana trabalhei normalmente. Também iniciei uma rotina de exercícios diários para manter o tônus muscular, incluindo passeios até a academia da terceira idade e uma sessão semanal de Pilates. Na próxima semana farei a primeira radiografia para ver como está a consolidação. Conforme estiver, poderei voltar a colocar o pé no chão com carga parcial. Depois de tirar o gesso, mais duas a três semanas de bota “Robocop”, para então colocar o pé dentro de um sapato novamente.

E aí, volto para a mesa cirúrgica. Minha expectativa é de realmente me curar e poder voltar a correr. O tempo vai dizer.



sexta-feira, 25 de março de 2016

Senhor Griswold

Por André Caúla

Na minha época de garoto, eu adorava quando as viagens de família eram para lugares de natureza exuberante, principalmente em locais com rios e cachoeiras. Passava horas dentro do rio brincando com meu irmão mais novo. Só saía de lá após meus pais nos chamarem insistentemente. Ainda nos dias de hoje, percebo claramente a minha necessidade de estabelecer esta conexão com a natureza. 


Durante a minha última aventura na Argentina, observei como os argentinos são rápidos durantes as subidas mais íngremes. Também tive a oportunidade de conviver brevemente com Agustina, proprietária do aconchegante Hostel Don Pilon, cujo lema era “Sentite como en tu casa, pero en la inmensidad de la Patagonia…”. Em uma conversa que tivemos, ela me contou que durante determinadas épocas do ano, o Hostel fechava ao público geral para receber hóspedes ilustres. Eram pequenos estudantes acompanhados de seus professores. Lá, eles aprendiam e faziam caminhadas nas infinitas trilhas de montanha da região. Desta forma, desde bem pequeninos, os jovens argentivos aprendem a conviver e preservar a natureza e, provavelmente por isso se tornavam tão habilidosos nas montanhas. 

Voltei desta viagem com uma convicção. Iria fazer junto com minha família, uma viagem de aventura. Comecei então a planejar locais, logística, equipamentos, acreditando que faria desta viagem, a maior recordação de infância da vida deles. Minha imaginação começou a navegar por trilhas, mochilas, subidas, descidas, rios, barracas, suor, frio e belas paisagens. Viver a intensidade da convivência, sem as distrações rotineiras de uma cidade grande. Isolar minha família da internet, wifi, tv, celular e diversos outros fatores que dificultam as relações pessoais no mundo moderno. Proporcionaria algo que eu mesmo nunca tive quando pequeno, algo especial. Estava certo que meu plano era infalível. 

Ontem, passamos em uma locadora de filmes e meus filhos escolheram assistir "Férias Frustadas". Me lembro deste filme na sessão da tarde, a versão antiga, década de 80, um besteirol com Chevy Chase no papel de Clark Griswold. Este era a versão 2015, nada além de uma continuação mais moderna. A essência era a mesma. Um pai de família que desejava passar mais tempo com sua esposa e filhos. Ele planejou suas férias inesqueciveis e tudo ocorreu completamente diferente. Meus filhos se divertiram assistindo. Eu ri também, mas confesso que no fundo fiquei meio pensativo. Explico mais adiante. 

Hoje, aproveitando que estamos em Itaipava, resolvi convidá-los para uma caminhada nas redondezas, com a promessa de mostrar locais desconhecidos. Na minha cabeça, seria o início de um treinamento físico que faria com eles, a fim de prepará-los para o meu projeto de felicidade. Bem, ninguém quis me acompanhar. Fui sozinho, enquanto eles ficaram com seus ipads e programas de televisão. 

Correndo solitário, comecei minhas rotineiras reflexões. Correr me causa isso. Pensamentos, idéias e soluções transbordam minha mente. Resolvo muitos problemas simplesmente correndo. Enfim, começou a me ocorrer que eu poderia ser uma espécie de Senhor Griswold, tentando prevalecer a minha idéia de viagem perfeita em família, impondo minha vontade egoísta para um programa que simplesmente ninguém quer fazer, onde só quem se realiza sou eu. Enfim, as gerações são diferentes, os objetivos e curtições também. Minha convicção se disipou, meu projeto está ameaçado...



quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Equipamentos obrigatórios para o La Mision Race

Por André Caúla

Os equipamentos obrigatórios para corridas de montanha de longa distância já não são novidades entre seus participantes. Existe, entretanto, uma característica muito singular nesta competição argentina, seus participantes devem ser praticamente auto-suficientes durante a prova. Digo "praticamente", pois existem dois postos de reabastecimento. Nestes locais, não há distribuição de alimentos pela organização, somente poucas frutas e água na temperatura normal e aquecida. Mas é possível deixar uma pequena sacola, onde pode-se deixar qualquer alimento ou objeto desde que caiba no interior da sacola, que é fornecida pela organização. É permitido também que qualquer atleta compre comida em estabelecimentos ao longo da corrida. Porém, estes locais são raros e frequentemente estão fechados dependento do horário em que cada corredor passa. São mantidos nos dois postos, chamados de Camp 1 e Camp 2, vendas de alimentos como pizza, sanduíches, etc, que permanecem abertos durante 24 horas.

Durante a charla técnica, o organizador do evento Jorge “Guri” Aznárez esclarece que o La Mision não se trata de uma competição de Ultra Trail, mas de uma prova de Trekking de Montanha e que, por este motivo cada corredor deve ser auto-suficiente em relação aos equipamentos e alimentos durante toda a duração da prova. Acrescenta que se trata de um prova rústica, bruta e difícil, sem muito suporte, sem frescuras, sem kits luxuosos, sem premiações relevantes, tudo muito simples e objetivo. Alerta ainda que os equipamentos poderão ser checados ao longo de toda a prova, e que o atleta que não estiver de posso do material obrigatório será imediatamente desclassificado. De fato, durante a retirada do kit, foi realilizada a checagem dos equipamentos, onde 4 itens foram marcados (neste ano foram o bivak, o saco de dormir, a jaqueta impermeável e o polar) e, ao longo da prova, nos camps 1 e 2 foram verificados se estes equipamentos estavam presentes e com as devidas marcações, caso contrário, fim de prova.

Sei que parece exagero e que a mochila fica extremamente pesada (no meu caso, os quase 9kg me assustaram muito), mas confesso que depois da prova não só achei que se justificava sua obrigatoriedade, pois haviam trechos de real perigo, como também acabei por utilizar TODOS os equipamentos que transportei.


Mochila/Reservatório de água
Considerando principalmente o volume do saco de dormir junto com o bivaque e demais materiais, a mochila deve ter, na minha opinião, no mínimo 20 litros de capacidade. Boas sugestões são a Ultimate Direction Faspack 20L, (535g) Raidlight Ultra Olmo 20L (680g), Salomon XA 20L (520g), Salomon Trail 20L (380g). Cada atleta deve transportar um reservatório com o mínimo de 1,5 litros de líquido, considerando que podem ficar sem acesso a agua por ate 5/7 horas). Aconselho e levar pelo menos uma garrafa, pois facilita o enchimento do reservatório nos riachos.

Três modelos de mochila com capacidade de 20 litros.

Captação de água nos riachos com auxílio da garrafa.


Headlamp
A headlamps são equipamentos obrigatórios e imprescindíveis para percorrer os trechos durante a noite. Na minha opnião, o melhor custo benefício é a Black Diamond Storm (modelo 2015) com 160 lumens, duração de 70 horas, peso de 110g, a prova de água (IPX7), e alimentada por 4 pilhas AAA e tem alcance de 70m. Custa cerca de 50 dólares. Dependendo da velocidade do atleta, e consequentemente durante quantas noites cada um vai passar, pilhas sobressalentes são absolutamente necessárias.

Capacete
O capacete faz parte dos equipamentos obrigatórios, e visa proteger o corredor em um possível queda nas montanhas íngremes e pedregosas da Patagonia Argentina, bem como de galhos de árvores que caem nos trechos de florestas. Seu uso não é obrigatório durante todo o percursos, mas altamente recomendável. Em alguns trechos, os staffs solicitam o uso do "casco". 

Descidas íngremes com auxílio de corda no Cerro O`Connor, onde o uso do capacete é obrigatório.

Trechos com pedras soltas e pontiagudas, e risco real de queda.

Saco de dormir
O saco de dormir deve possuir pelo menos três camadas. Optei por o modelo Deuter Dream Lite 500, devido ao seu volume e peso (600g).  Entretanto, sua temperatura de conforto é de 13 graus, o que significou passar um pouco de frio "suportável", pois pegamos temperaturas mais baixas. Para pessoas mais friorentas ou mulheres, talvez um modelo mais quente seja mais adequado.

Saco de bivaque
Este saco consiste num saco impermeável para ser colocado cobrindo o saco de dormir em caso de chuva ou lugares úmidos. São difíceis de serem encontrados no Brasil.

Bastões de caminhada
Os bastões de caminhada não são equipamentos obrigatórios, porém fortemente recomendados. Eu diria que cerca de 95% dos participantes utilizam. Além de ajudarem bastantes durante as subidas, auxiliam no equilíbrio na travessia de rios e impões uma caminhada mais ritmada.

Auxílio de bastões em travessias sobre troncos.

Polainas
Também não são obrigatória, mais dificultam a entrada de areia e pedras no interior do tênis, evitando, desta forma, paradas diversas para remoção dos detritos.

Trechos de areia, onde os pés afundam completamente e o uso de polainas ajudam.


Kit de primeiros socorros
Compõe este kit:
- Três (3) curativos auto-adesivos para cobrir bolhas. Por exemplo: Moleskin , Compeed, Second Skin ou apenas Band-Aids.
- 1 (um) rolo de bendage elástica de 1,50 metros de longo e 7cm de largura.
- 1 (um) rolo de bendage NO elástica 1,50 metros de longo e 7 cm de largura.
- 2 (dois) envelopes individuais de fina gaze estéril para cobrir feridas.
- 1 (um) compressa cirúrgico grosso para cobrir feridas profundas.
- 20 ml de solução de iodo-povidona. (Sem sabão)
- 4 (quatro) comprimidos antidiarréicos (loperamida)
- 4 (quatro) comprimidos anti-histamínico (loratadina)
- 2 (dois) envelopes de sais minerais para reidratação, pode ser sal de mesa.
- Seis (6) 400 mg comprimidos ibuprofeno.
- 1 (uma) fita adesiva de 2,5 cm de largura por 1,5 m de comprimento.
- 1 (um) par de luvas de látex descartáveis.
- 1 (uma) Pinça depilatoria.
- 1 (um) Pequena tesoura

Resumindo: 
- Sim, a mochila fica pesada e volumosa. 
- Sim, é difícil correr com este peso nas costas. 
- Sim, eu senti dores nas costas e ombros durante e após a prova. 
- Sim, eu usei todo o material que transportei. 
- Sim, houve checagem de equipamentos durante a prova e atletas foram desclassificados.
- Não, eu não recomendo deixar de levar nada .
- E apesar de tudo, eu senti uma sensação incrível de independência e liberdade, como se toda a minha vida estivesse sobre meus próprios ombros, e absolutamente nada além do que estava ali era necessário para minha vida.