terça-feira, 13 de outubro de 2015

Courmayer-Champex-Chamonix Ultra-Trail du Mont Blanc 2015

A viagem

O caminho mais rápido para Chamonix é através do Aeroporto de Genebra, na Suiça. E a passagem mais em conta que eu consegui foi pela TAP, com uma escala em Lisboa. Por este motivo, decidi passar 2 dias em Lisboa e Cascais, me abastecendo de energia com doces portugueses legítimos, os meus favoritos. Então seguimos para Genebra, onde alugamos um carro no lado francês do Aeroporto Ferney Voltaire. Dirigi cerca de 100km de estradas maravilhosas com um asfalto impecável, por cerca de uma hora e meia até chegar na tão esperada cidade de Chamonix. Finalmente, encontramos nosso hotel, extremamente bem localizado. A vista do quarto era simplesmente deslumbrante, o imponente Mont Blanc. A trilha sonora era da água turva de origem glacial, que descia velozmente pelo rio Arve, logo abaixo de nós. Rapidamente, deixamos nossas bagagens e seguimos para o centro da cidade, cerca de 3 minutos de caminhada. Chamonix transpirava energia. Eram corredores, mochileiros, ciclistas e mais várias lojas de esportes outdoor para todos os lados. Passeamos bastante e comemos muito bem nos dias que antecederam a largada.


Checkin

No dia marcado, arrumei minha mochila e equipamentos de corrida e segui para o centro esportivo, para a retirada do kit e checagem dos equipamentos obrigatórios. De forma muito bem organizada, entrei numa rápida fila e, após minha identificação, o computador sorteou de forma aleatória uma lista de equipamentos que seriam verificados. Separei todo o material em uma bandeja e apresentei para o fiscal. Então, recebi os materiais que consistiam em uma fita com a logo do CCC no punho, um lacre de identificação e controle na mochila, o dorsal e uma camisa. Estava pronto para a largada. 


Rumo a largada

Acordamos bem cedo e seguimos para o ônibus da organização que nos levaria até Courmayer, na Itália, através dos quase 12km do túnel do Mont Blanc. Minha esposa me acompanharia por toda a prova, indo aos locais onde era permitido o nosso encontro (Champex-Lac 55km, Trient 72km e Vallorcine 83km). Chegamos a cidade italiana, por volta de 7:30 da manhã. Estava bem frio, e os atletas se abrigavam deitados no chão de uma lanchonete, próximo ao ponto de ônibus. Ficamos lá por quase 1 hora, e aos poucos os atletas iam caminhando até o local de largada. Um amontoado de corredores, familiares e espectadores ocupavam o centro da cidade. Os atletas eram divididos em 3 grandes blocos de acordo com a numeração do dorsal. Cada bloco teria uma largada distinta, as 9:00, 9:10 e 9:20. Então fiquei sabendo que largaria as 9:20, o que me deixou ainda mais ansioso, pois eram 1.900 corredores em trilhas estreitas com poucos pontos de ultrapassagem. Me despedi da Fernanda, sabendo que só voltaria a vê-la no fim daquele exaustivo, porém aguardado dia.


A prova

Vinte minutos após a primeira latada, eu comecei a correr. Ao longo da prova, os moradores locais ostentavam seus belos sinos de todos os tamanhos e diferentes sonoridade. Ainda pelas ruas asfaltadas do centro de Courmayer, já encarava uma subida ao som dos sinos que pareciam infinitos. Tentava aproveitar o momento para passar o máximo possível de corredores, antes de chegar na trilhas. Mas isso não durou muito, logo em uma curva, saímos do asfalto e pisamos em terra firme. Pronto, senti que estava em casa. A trilha seguia por uma estreita, longa e irregular subida em uma floresta de pinheiros. Tentei fazer algumas ultrapassagens, mas percebi que o desgaste físico gerado era muito maior do que as poucas colocações que eu conseguia obter. Decidi acompanhar aquele enorme pelotão. Em uma caminhada acelerada e constante, ritmada pelos bastões que segurava nas mãos, eu segui em direção ao ponto mais alto da prova, Tête de la tronche. A paisagem mudou, as árvores desapareceram. A subida era simplesmente interminável, em direção ao sol que surgiu de maneira implacável, castigando ainda mais todos os atletas que seguiam, sem uma sombra sequer para aliviar o calor infernal. Alcancei o primeiro posto de abastecimento aos 15km no Refúgio Bertone, na 1.172a colocação. Lá, precisei reabastecer o saco de hidratação e as 2 garrafinhas, pois já havia consumido quase 2 litros de líquido. Um staff francês me ofereceu a água para o reabastecimento e parti em seguida, tudo muito rápido. Após uma corridinha, comecei a sentir minha mochila apertada, incomodando. Demorei para entender o que estava acontecendo, era como se minha mochila estivesse mais cheia, inchada. Olhei para as 2 garrafinhas guardadas no meu peito, estavam infladas. Apertei o bico das garrafinhas e o ar vazou. Tinham me abastecido com água gasosa, que eu detesto. Não tinha o que fazer, o próximo posto de abastecimento estava há 7km, e qualquer líquido era muito precioso naquele momento. Segui assim até o Refúgio Bonatti, onde consegui substituir toda a água. Neste momento esta na 1.313a colocação.

Passei por Arnuva, e continuei subindo até o Grand col Ferret, sempre empunhando os bastões, que a esta altura, pareciam que eram extensões do meu próprio corpo. Ao chegar no pico, já estava praticamente sem água. Comecei a longa e extenuante descida preocupado em relação a água. Em algum ponto abaixo, havia um grupo de trabalhadores rurais com panelas de água. Enchi uma garrafinha de 500ml, mas o senhor se negou a encher a outra, alegando que havia pouca água e que deveria ser igualmente distribuída. Entendi, e segui adiante. O sol já começava a se esconder atrás de algumas montanhas, oferecendo alguns momentos de sombra. Continuava tentando administrar a pouca quantidade de água que possuía. Quando cheguei em La Fouly, pude me alimentar e me hidratar melhor. O sol começava a desaparecer, mas a temperatura ainda era quente. Apesar de estar muito cansado, tentava chegar até o próximo posto, aproveitando a pouca luz do dia que ainda existia. Cruzei alguns vilarejos. Moradores da região, de diferentes idades, saíam de suas casas, colocavam cadeiras na varanda ou na rua e gritavam, aplaudiam e balançavam orgulhosamente seus sinos. Diversas crianças, auxiliadas por seus pais, montavam barraquinha e ofereciam, biscoitos, sucos e café aos corredores que ali passavam. Assim alcancei Champex-Lac, 55km, as 20:43 hrs, na 1.062a colocação, exausto, mas feliz ao reencontrar minha esposa.


Sentei, sem forças, tentei me alimentar. Estava bem enjoado, com dificuldade de ingerir alimentos sólidos. Após uns 3 anos sem beber uma coca-cola, eu me rendi. Nossa, como aquilo desceu bem. Era noite e a temperatura já havia mudado. Estava frio. Vesti o casaco, coloquei gorro e luvas, e peguei a lanterna de cabeça. Passei no posto de fiscalização e fiz a última checagem. Me despedi e entrei escuridão adentro.

Voltei a correr ainda no asfalto, dentro da cidade. Apesar do frio, comecei a suar. Decidi tirar a luva e o gorro. Saí do trecho urbano e segui novamente pelas trilhas. O próximo posto estava 17km a frente. Era a maior distância entre os pontos de apoio. A escuridão me fazia diminuir o ritmo e ficar mais alerta. A esta altura, os atletas estavam mais dispersos e espaçados. Novamente as subidas começaram, e como eram íngremes. Me posicionei logo atrás de um italiano e me esforçava para acompanhá-lo. Depois de mim, havia um grupo de 4 atletas, que não me deixavam diminuir. Degrau após degrau, eu acompanhei aquele grupo, sem que absolutamente nada fosse dito. O silêncio da noite apenas era cortado pelo som da respiração ofegante do nosso grupo. Mais adiante, o italiano, chegou para o lado, me deu passagem e sentou, tentando recompor suas respiração.  Passei a liderar o grupo por algumas horas. Então também dei passagem, pois estávamos impondo um ritmo muito forte. Continuei sozinho por um longo período. Na minha opinião, este foi o trecho mais difícil da prova. Ainda assim, cheguei a Trient na 983a posição.


Após comer um pouco, me hidratar e reabastecer os reservatórios, segui em direção ao alto do Catogne. Neste trecho, fiquei um bom tempo completamente sozinho. Então, comecei a ouvir o som dos sinos. Imaginei que estaria chegando próximo de algum vilarejo com seus moradores oferecendo apoio e solidariedade. Mas eram quase 3:00 horas da madrugada, não haviam luzes de casas ou cidades. Somente a lua cheia brilhando no céu e acompanhando nossa peregrinação. “Será que o som dos sinos que escuto são algum tipo de alucinação”? Ao olhar para o lado, identifiquei um pasto e vi a sombra de algumas vacas com sinos no pescoço. Estava bem alerta, sem nenhum sono, quando comecei a descer para o penúltimo posto de apoio antes da chegada. Alcancei Vallorcine as 4:00 hrs na 893a colocação.

Reencontrei Fernanda, que me encheu de energia e motivação. Ela buscava vários alimentos, mas eu já não conseguia comer nada sólido. Misturei os últimos pozinhos que tinha e bebi. Sabia que ia enfrentar a subida mais famosa deste desafio. Fui alertado disso. Mas sabia também que estava me sentindo cada vez melhor. Indo cada vez mais rápido. Me despedi. Só a veria já em Chamonix.

De novo nas trilhas, caminhava quando percebi os outros corredores olhando para o céu. Fiz o mesmo e fiquei assustado com o que vi. Uma lua cheia e brilhante, demarcava de forma bem definida, o contorno de uma alta montanha. Na sombra desta montanha, havia um sequencia de pontos luminosos em fila indiana, que se estendiam desde sua base até o alto de seu cume. Eram as luzes das lanternas de cabeça dos atletas que estavam mais a frente. Atravessei uma rodovia e cheguei a base da montanha. Sua subida era tão íngreme, que ao olhar para cima, fique tonto. Decido só olhar para o chão e comecei a subir. Surpreendentemente, conseguia estabelecer um ritmo forte e constante, sem alterar de forma significativa minha respiração. Desta maneira, fui ultrapassando vários corredores de forma determinada e sistemática até alcançar o cume de Tête aux vents. Eram 6:30 e o dia começava a clarear. Decidi que não precisariam mais da lanterna e aproveitei para tirar meu casaco. Me sentia muito bem, e comecei a acelerar o ritmo. O terreno era pedregoso e irregular, o que não me oferecia muita dificuldade. Comecei a descer a montanha, já imprimindo um ritmo cada vez mais forte. Quando passei por La Flégere, eu nem parei para me abastecer. Entrei e sai da tenda em alta velocidade. Segui assim por quase 40 minutos até chegar na cidade de Chamonix. Olhei para meu relógio, que marcava 22:45 horas de duração. Sem dormir. Já no asfalto, aumentei o ritmo, ansioso para terminar com um tempo inferior a 23 horas. Avistei o pórtico e cruzei a linha de chegada com 23:00:40 de prova, as 8:20 da manhã, na 747a colocação. Havia passado 147 corredores, desde que saí de Vallorcine, sendo o primeiro brasileiro a passar a linha de chegada. Enfim, recebi o objeto que representa esta suada conquista, um colete de Finisher. Na cabeça, uma satisfação difícil de explicar, de quem conseguiu atingir os objetivos e superar seus próprios limites.






segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Equipamentos obrigatórios para o Ultra-Trail du Mont Blanc


O tempo nas montanhas é imprevisível. Portanto, todos que desejam visitar este ambiente desafiador, devem estar devidamente preparados para eventuais surpresas. O corredor de montanhas está sempre tentando manter o equilíbrio exato entre correr leve e levar os equipamentos necessários para se manter seguro, seco, aquecido e confortável. O ideal e transportar exatamente o que será necessário, pois equipamentos demais podem deixar o atleta mais confortável e seguro, porém este peso extra também limita a velocidade, distância ou altura que se pode alcançar. Em contrapartida, o atleta que corre leve demais em detrimento de levar os equipamentos básicos, pode se colocar em situações perigosas e de risco a vida.

Ainda devemos estar atentos aos parâmetros corretos. Observamos os atletas profissionais, correndo com seus tênis minimalistas, mochilas ultra leves e pequenas e, as vezes desejamos fazer o mesmo, usar "aquele" equipamento. Entretanto, devemos observar que um atleta profissional termina os 166km do UTMB, por exemplo em 20/21 horas, enquanto a maioria dos mortais pode levar até 46:30 para concluir a mesma prova, ficando expostos as intempéries pelo dobro do tempo.

Neste sentido, as principais provas de montanha costumam estabelecer dois importantes critérios: (1) Necessidade de pré-requisitos para fazer a inscrição, o que impede que atletas sem experiência possam se expor a maiores riscos e (2) Definição e cobrança de equipamentos obrigatórios, minimizando os riscos de exposição dos atletas. 

Vamos rever aqui todos os itens obrigatórios nas cinco provas do Ultra-Trail du Mont Blanc. Todo o material obrigatório é checado durante a distribuição do numeral e a qualquer momento durante a prova. A falta de qualquer um deste equipamentos de segurança (Reservatório de água 1L, jaqueta, lanterna de cabeça e cobertor de emergência) implica em desqualificação imediata.


Mochila/Reservatório de água
Cada atleta deve transportar um reservatório com o mínimo de 1 litro de líquido. As corridas acontecem em semi-autonomia, portanto não há água disponível entre os postos de hidratação. O atleta também deve ser autónomo em caso de um problema, ter água suficiente para re-hidratar-se enquanto espera a ajuda chegar.
Salomon Adv Skin S-lab 12L

Telefone Celular
Todos os atletas devem portar um telefone celular com o serviço de roaming internacional com carga total de bateria, para se comunicar com a organização da prova. É altamente recomendável para minimizar o consumo da bateria, limitar o uso do telefone durante a corrida e desativar todas as opções desnecessárias, como wifi, bluetooth e 3G. O aparelho também deve estar protegido da água, dentro de um saco estanque. Não há como recarregar o telefone durante a prova, nas estações de hidratação. Os telefones úteis são:
Organização UTMB +33 4 50 53 47 51
ALERTA SOS: França 112, Itália 118 e Suíça 144.

Copo
De modo a evitar o desperdício, utilizando copos plásticos descartáveis durante a corrida, bem como a possibilidade de sujar as trilhas, cada corredor deverá estar equipado com um copo de um volume mínimo de 150 ml, a fim de ser servido com bebidas nos postos de hidratação. Este copo deve ser leve, compacto e resistente ao calor para que você possa tomar uma sopa.

Sea To Summit XCup 250ml

Headlamp
Duas headlamps com pilhas sobressalentes para ambas são equipamentos obrigatórios e necessários para percorrer os trechos durante a noite. Comentário: Atualmente, a headlamp mais moderna é a poderosa Petzl Nao com 575 lumens e luz reativa. Com peso de 187 gramas, e resistente a água (IPX4), possui bateria recarregável que pode ser substituída por 2 pilhas AA, durando até 52 horas na função reativa com 575 lumens ou 1:30 com luz constante de 430 lumens, com alcance de até 130 metros. Na minha opnião, o melhor custo benefício vai para a Black Diamond Storm (modelo novo-2015) com 160 lumens, duração de 70 horas, peso de 110g., a prova de água (IPX7), e alimentada por 4 pilhas AAA e tem alcance de 70m. Custa cerca de 50 dólares contra os 185 dólares da Petzl Nao.

Headlamps Petzl Nao, Petzl Tikka XP2, BD Storm modelo antigo 100L e modelo 2015 com 160L

Manta de sobrevivência
A manta de sobrevivência deve ter as seguintes medidas mínimas 1,40m x 2m. Tem o objetivo de oferecer proteção contra o frio, calor, chuva, umidade e vento, no caso de um problema ou lesão ao longo do percurso, enquanto se espera por ajuda. Geralmente a manta de sobrevivência possuem lados diferentes, um lado dourado e outro prateado. Quando a superfície dourada está para fora, ela protege do frio, porque conserva o calor da pessoa, de modo a mantê-la aquecida. Quando a superfície prateado está fora, protege do calor, porque o lado prata reflete os raios do sol. A manta deve envolver totalmente a pessoa e não é possível sua reutilização.


Apito
O apito é útil se você cair em um barranco ou se estiver perdido. Algumas mochilas e headlamps possuem apitos acoplados.

Bandagem elástica adesiva
Uma bandagem ou atadura elástica autoaderente está indicada para proteção da musculatura, curativos compressivos, imobilização, fixação de curativos e proteção de locais com ferimentos. Sua medida mínima é 1m de comprimento total quando esticada, por 6cm de largura.

Atadura elástica Nexcare 3M

Alimentos
Cada atleta deve correr em semi-autonomia, ou seja, possuir alimentação suficiente para correr entre os postos de hidratação. É possível pegar e armazenar na mochila, os alimentos distribuídos nos postos. Há dois tipos de postos: (1) Apenas com bebidas, água com ou sem gás, bebida energizante, cola, café, chá e sopa de macarrão; (2) Completos, além das bebidas citadas, possuem barras de cereais ou energizantes, bolo, banana, chocolate, laranjas, uvas passas, ameixas secas, biscoitos salgados, queijo, salame e pão. Além disso, um prato quente é  oferecido nos pontos abaixo:
UTMB: Les Chapieux, Courmayeur  e Champex.
CCC:  Champex.
TDS: Le Cormet de Roselend.

Jaqueta
É imprecindível que cada atleta possua um jaqueta com capuz com uma membrana impermeável (Gore-Tex ou similar, com mínimo 10.000 Schmerber-unidade de medida da impermeabilidade) e respirável (RET-Resistência Evaporação Transferência, aconselhável inferior a 13).

Jaqueta impermeável TNF Venture

Segunda pele adicional
Mesmo em agosto, a temperatura no Mont Blanc pode ser muito fria; portanto, todo atleta precisa ter uma roupas que esquente. Nesta caso, existem duas opções:
Opção #1: uma peça de roupa quente com mangas longas (não algodão), com um peso mínimo de 180 gramas (Referência: tamanho M, masculino). Pode ser um micro-fleece ou uma roupa térmica.
Opção #2: combinação de roupa interior quente com mangas longas (primeira ou segunda camada, não algodão) com um peso mínimo de 110 g (Referência: tamanho M, masculino) + uma jaqueta  corta vento.
TK 80 TNF Fleece
Jaqueta TNF Feather Lite Storm Blocker

Icebreaker Merino Sprint Crewe
Calça ou conjunto que cubra totalmente as pernas
É obrigatório possuir uma roupa que cubra completamente as pernas. Pode ser uma simples calça ou um conjunto de peças (bermuda longa+meião ou short+pernito), desde que nem os joelhos fiques expostos.

Calça Curtlo Race Compress
Bermuda Curtlo Race Compress+Pernito ThermoSkin

Calça impermeável
Todos devem levar uma calça impermeável, além da calça ou conjunto de corrida que cobre as pernas.

Calça TNF Venture


Calça TNF Venture dobrada dentro do próprio bolso




Cap, bandana ou equivalente
O atleta deve ter alguma forma de cobertura na cabeça para proteger sua cabeça quando está quente e ensolarado.

Gorro ou bandana com fleece
O atleta deve ter alguma forma de cobertura na cabeça para proteger sua cabeça quando está frio.

Luvas
As luvas devem preferencialmente serem quentes e impermeáveis, entretanto serão aceitas luvas resistentes a água ou um conjunto de luvas quentes+luvas de borracha.

Luvas Hanz waterproof com chillblocker

Documentos
Todos os atletas devem transportar documentos de identidade/passaporte.

Óculos de sol
É altamente recomendável que os atletas usem óculos de sol para proteção dos olhos.

Compasso e altímetro
Como o trajeto do PTL não é demarcado, estes atletas devem levar equipamentos que permitam a navegação adequada durante a corrida.

Crampons
Exclusivo para os atletas do PTL. É colocado sobre os tênis e visa facilitar a locomoção em locais com neve.


Para fazer o download do checklist completo, clique aqui.







quarta-feira, 29 de julho de 2015

Corrimundo no Mont Blanc: Preparativos e Expectativas.

Desde que eu comecei a correr nas trilhas e montanhas, em 2011/12, eu sempre sonhei em fazer de uma prova no Mont Blanc. Sem sombra de dúvidas, a Ultra-Trail du Mont-Blanc (UTMB) é a competição de montanha mais emblemática do mundo. E, por isso mesmo, não é tão fácil participar desta prova. A rota segue basicamente o trajeto de caminhada circundando a montanha mais alta da Europa ocidental. Este percurso em torno do Mont Blanc é conhecido como Tour du Mont Blanc, que normalmente é feito em 7-12 dias, por caminhantes e passa por três países, França (Chamonix), Itália (Courmayeur) e Suiça (Champex). 


Para começar, não é apenas uma prova, mas um evento com cinco competições, a Ultra-Trail du Mont Blanc (UMTB) com 168 quilômetros, a Courmayeur-Champex-Chamonix (CCC) com 101 quilômetros, a Sur Les Traces Des Ducs de Savoie (TDS) com 119 quilômetros, a La Petit Trotte à Léon (PTL) com 300 quilômetros e a Orsieres-Champex-Chamonix (OCC) com 53 quilômetros. Este ano de 2015, ainda foram criadas 2 provas para crianças e adolescentes, a Youth Chamonix-Courmayeur com 15 quilômetros (1.100m D+) para adolescentes de 16-19 anos, e a Mini Ultra-Trail para crianças de 3 a 13 anos, com distância variando de 400m a 3 quilômetros.


Para participar das competições existem pré-requisitos, como a pontuação em provas classificatórias credenciadas que ocorrem por todo o mundo. Para cada prova, há uma pontuação exigida, de acordo com o grau de dificuldade. Desta forma, os organizadores conseguem selecionar atletas com alguma experiência prévia em corridas em montanhas. Após verificada a experiência do atleta, há um sorteio onde são selecionados os participantes. Em 2015, dos 8.672 atletas registrados para o sorteio, somente 7.115 conseguiram a tão sonhada vaga e 8.672 terão que esperar. Este ano,  a campeã de procura foi a recém criada OCC com 3,61 atletas para cada vaga, seguida pela UTMB com 2,58 atletas por vaga, CCC com 1,80/vaga, TDS com 1,12/vaga e PTL com 1,17/vaga.


Em 2014, eu me candidatei para o CCC. O sistema de pontuação era menor, ou seja, precisava de somente 2 pontos em 1 ou 2 provas. Infelizmente, não fui sorteado. Então tentei novamente em 2015, porém agora eram necessários 3 pontos. Somando 2 pontos do Half Mision Serra Fina com 1 ponto do El Cruce, garanti meus pontos. Em 15 de janeiro de 2015, recebi o email com a feliz notícia de que havia sido sorteado. Começou então uma árdua etapa de treinamento para eu conseguir alcançar meu objetivo: Completar o CCC 2015.



Conversei com meu treinador Walter Tuche, iniciei um programa de fortalecimento/alongamento com pilates no Studio Vértice e  revi minha alimentação/suplementação com um médico nutrólogo. Ao longo dos 6 primeiros meses de 2015, eu corri cerca 196 horas, 1.884km, subi 28.234m e perdi cerca de 5/6kg. Além dos treinos longos, utilizei algumas provas como treinamento. Corri o El Cruce Columbia (100km-3 dias) pela quarta vez em fevereiro com relativa tranquilidade. Em maio, participei do The North Face Endurance Challenge Ultra Trail Agulhas Negras (80km), uma prova mal organizada em que fui cortado por tempo, mas mesmo assim pude tirar algumas lições importantes. Em junho, corri o XC Itaipava (50km), uma excelente prova onde pude me testar, além de experimentar alguns equipamentos. 


Agora, há aproximadamente 30 dias antes da viagem, eu revejo minunciosamente toda a logística, alimentação, equipamentos e ajustes finais. Vejo alguns relatos valiosos que encontro pela internet. Todos são unanimes em dizer que a organização é impecável, e também rigorosa. Alguns relatos são de atletas que foram cortados ou desistiram. Sei que mais de 30% dos atletas que largam, não conseguem completar as provas.  Releio cuidadosamente o guia de prova. São 2.000 voluntários, 35 médicos, 80 enfermeiros, 48 postos de controle, 38 postos de abastecimento, etc. vejo o histórico de incidentes, atendimento de primeiros socorros e resgates com helicóptero (em 2009 foram 7). O mais assustador e preocupante, no meu ponto de vista, é a imprevisibilidade do tempo. Neste sentido, preciso estar preparado para qualquer adversidade. É bem verdade que eu curto muito este preparativo que antecede a prova.


A lista de equipamentos obrigatórios é extensa. Aproveito para separar e testar todos os equipamentos que selecionei. Alguns são difíceis de testar neste clima carioca, luvas térmicas, baselayer/midlayer e jaquetas. A ansiedade aumenta a cada dia e fica difícil se concentrar em outras atividades. No próximo post, vou discutir sobre os equipamentos que pretendo usar no CCC 2015.




terça-feira, 26 de maio de 2015

A evolução natural das Corridas em Trilhas

A necessidade do homem de correr velozmente curtas ou longas distâncias é tão antiga quanto a humanidade. Ser rápido, permitiu ao homem sobreviver, caçar animais para se alimentar, ou mesmo escapar de um perigo iminente. Em um tempo onde não haviam estradas, nem túneis para evitar as montanhas, sem pontes para atravessar os rios, o homem era obrigado a correr pelas colinas, sobre as montanhas, através das florestas e cruzar rios, tão rápido quanto podia. E ele não estava correndo por medalhas, troféus, dinheiro ou glória, corria simplesmente para sobreviver.

Hoje, não corremos mais por estes motivos, porém, algumas pessoas ainda sentem, quase como um instinto natural, um forte desejo interior de correr seja na natureza, sobre as montanhas ou no asfalto liso e plano.

Definições
A corrida em trilhas é a precursora de todas as corridas. Em 1995, a Federação Atlética Britânica aprovou a primeira definição formal para os eventos de corrida em trilhas. De acordo com a Associação Internacional de Corridas em Trilhas (ITRA), a corrida em trilhas é definida como uma corrida pedestre em que todas as pessoas podem participar, realizada na natureza (montanha, deserto, florestas ou campos), com obstáculos naturais (tais como subidas com diferentes inclinações, descidas, troncos de árvores, pequenos riachos, grama e terra batida) e devidamente sinalizada, ou seja, os corredores deverão receber informação suficiente para completar a corrida sem se perder.

O principal critério para definir uma corrida em trilhas é que o trajeto tenha uma superfície natural, ou seja, não-pavimentada. A corrida em trilhas pode ser realizada na grama, pedras, areia, cascalho, lama, neve ou água. Entretanto, devido a grande urbanização mundial, a ITRA aceita que uma pequena parte do percurso possa ocorrer em vias pavimentadas e/ou asfaltadas, porém não deverá exceder 20% do curso total.

A corrida em trilhas deve ser realizada idealmente em auto suficiência ou semi–auto suficiência, ou seja, os corredores tem de ser autônomos, entre as estações de ajuda, em relação a vestuário, comunicações, alimentos, bebidas e equipamentos de emergência. Considerando que muitas provas são realizadas na natureza selvagem e em locais remotos, é enfatizado que os atletas devem ter respeito à ética desportiva, lealdade, solidariedade e, sobretudo, preservar o meio ambiente.

Panorama Internacional
Em 2012, foi realizado o primeiro Fórum Internacional sobre Corrida em Trilhas, em Courmayeur na Itália, que reuniu mais de 150 pessoas, entre organizadores de corridas, fornecedores, mídia e atletas de elite de 18 países em todo o mundo. Esta conferência permitiu a todos os participantes a tomar consciência da diversidade de pontos de vista e da necessidade de organizar as Corridas em Trilhas como uma disciplina separada, tendo em conta as abordagens a todos os continentes: Américas, Ásia, África, Oceania, Europa. Assim, foi criada em Julho de 2013, a Associação Internacional de Corridas em Trilhas (ITRA). Entretanto, oficialmente a Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF), ainda não reconhece a Corrida em Trilhas/Trail Running como uma disciplina atlética, o que provavelmente só irá ocorrer em agosto de 2015, durante o Congresso Mundial em Beijing.

Desde sua fundação, a ITRA avançou em diversos pontos, sendo os principais: (1) proposta de uma definição internacional para corrida em trilhas, (2) elaboração de um código de ética e conduta (3)  estabelecimento de uma política de saúde e luta contra a doping, (4) estabelecimento de um ranking internacional baseado na gestão racional dos atletas de elite, (5) elaboração de um índice de rendimentos dos atletas em provas certificadas, e (6) definição de parâmetros e certificação de provas, contribuindo, desta forma, para a melhoria da qualidade das organizações e segurança dos participantes durante as competições.

Panorama Nacional
No Brasil, a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), filiada à Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF), é a única entidade de direção nacional do Atletismo brasileiro em todas as suas modalidades, incluindo pista e campo, corridas de rua, marcha atlética, corridas através do campo e corridas de montanha.

Todo o processo de organização de provas de Corrida em Trilhas no Brasil é muito recente e, definitivamente, ainda deve sofrer grande evolução nos próximos anos. Mas devemos ter em mente que as Corrida em Trilhas são realizadas em ambientes naturais e remotos em sua maioria, onde um resgate pode ser difícil e demorado, e o atleta deve ter consciência de sua real capacidade física, mental e técnica, a fim de selecionar cuidadosamente em qual prova se inscrever para não se colocar em risco desnecessário. Para que isto seja alcançado, os organizadores devem informar com antecedência e maior precisão possível, todas as informações referentes a prova em questão. 

Conforme sugerido pela classificação de Killian Jornet, estas informações relevantes e indispensáveis devem incluir (1) distância, (2) elevação e (3) dificuldade técnica. Devem incluir ainda: (4) os tempos máximos de cortes final e intermediários compatíveis com o percurso, (5) se há ou não pontos de resgate abastecimento e suas respectivas localizações (e, de preferência, o que será disponibilizados de alimentos) e (6) quais os itens são considerados essenciais e, portanto, obrigatórios para se completar a prova com segurança. 

Para provas com distâncias longas e alto grau de dificuldade técnica, os organizadores devem exigir uma experiência prévia do atleta, a fim de não colocá-lo em risco, bem como não prejudicar a corrida para os demais atletas, que podem ficar impedidos de passar em um trecho estreito, ou mesmo ter que parar para prestar socorro em caso de real necessidade. Esta experiência prévia normalmente é estabelecida pela ITRA através de pontuação atribuída após conclusão de competições em seus diferentes graus de dificuldade. As principais competições de Corridas em Trilhas mundiais, como Ultra Trail du Mont Blanc, Hardrock 100, Western States solicitam esta experiência prévia a fim de salvaguardar seus atletas, mas também de controlar a grande demanda de inscrições.

Enfim, para que as Corridas em Trilhas possam evoluir de maneira eficiente e consistente, ambos os lados, atletas e organizadores devem se comprometer a respeitar suas verdadeiras atribuições, aceitar suas responsabilidades, aprender com seus erros e consequentemente melhorar seus desempenhos em todos os sentidos.


domingo, 24 de maio de 2015

The North Face Endurance Challenge Brasil, decepção na montanha!

Quando soube que a primeira prova do circuito internacional Endurance Challenge Ultra Trail no Brasil seria nas Agulhas Negras, me empolguei e fiz minha inscrição para correr os 80km. Bom, acho que minha empolgação parou por aí. A partir deste ponto, começou uma série de falhas que culminaram com um total fracasso de organização. Mas, vamos aos fatos...

A empresa contratada para organizar o evento foi a TRC Trail Running Club, que organiza cinco provas de trail no sul do Brasil, entre elas a Maratona dos Perdidos. Nunca participei de nenhuma delas, mas sei que são consideradas boas provas.

Alguns dias antes da prova, recebi um comunicado da organização, informando uma alteração no percurso devido a um cancelamento na autorização da ICMBio, responsável pela administração dos parques nacionais brasileiros, que permitia o acesso ao Parque Nacional de Itatiaia. Após uma grande demora, foi divulgado o novo percurso, e o Ultra Trail Agulhas Negras se transformou no Ultra Trail Pedra Selada. A primeira decepção.

Como divulgado com antecedência no regulamento, haveria um tempo limite de 15 horas para conclusão dos 80km. Mas, quando recebi os tempos de cortes intermediários, percebi uma grande incoerência. A primeira metade da prova, onde havia o maior desnível e dificuldade, deveria ser completado em cerca de 7 horas (6:59:39 precisamente) no quilometro 38,5. E a segunda metade, os restantes 44,1km mais plano e rápido, deveria ser concluído em 8 horas. E, apesar das tentativas de argumentação com os organizadores, não houve alteração destes limites. Segunda decepção.



Houveram ainda alguns problemas de logística durante a entrega dos kits no Rio de Janeiro, que continham uma camisa The North Face produzida pela Trailevo, talvez mais uma uma incoerência, mas vamos desconsiderar esta parte.

Cheguei um pouco tarde na largada. Conferi os equipamentos e larguei no pelotão de trás. Comecei a acelerar, passando alguns corredores, mas logo entramos num single track noturno que tornava quase impossível fazer qualquer ultrapassagem. Para uma prova com tantos trechos de estrada de terra e asfalto, programar um single track logo no início da prova, e a noite, foi uma mancada. Terceira decepção.

Ainda consegui passar alguns corredores e tive que acelerar muito para alcançar o hard cut off #1, que alcancei com 3:49:39. O tempo limite era 4:20:31. Olhando meu GPS, observei uma divergência de quase 2km em relação ao mostrado pela organização. Provavelmente, mais de 50% dos corredores foram cortados neste momento. Uma prova em que a maioria dos atletas é desclassificada no primeiro corte tem, na minha opnião, um indiscutível erro de planejamento. Até porque, em momento algum foi solicitado alguma experiência prévia, comum em provas de muita exigência como o UTMB, por exemplo. Enfim, quarta decepção.

Uma subida forte e uma descida muito técnica e escorregadia dificultavam a corrida na Pedra Selada, não permitindo que eu baixasse muito meu tempo. Meu GPS marcou 38,5km com 6:53:06, onde deveria estar o hard cut off #2, mas não havia nada no local. Continuei descendo andando o mais rápido possível e alcancei o corte no km 41,30 com 7:29:06, recebendo a notícia de minha eliminação. Segundo a "desorganização", o tempo de corte era 6:59:39. Vários atletas reclamavam com os staffs, que reconheciam o erro, mas nada podiam fazer. Coube a mim, entrar no ônibus e assimilar minha primeira prova de montanha não cumprida, minha primeira desclassificação. E eu ainda estava bem fisicamente para continuar. Quinta e maior decepção.

Acompanhei a chegada dos atletas que conseguiram concluir o desafio e ainda relataram falhas inaceitáveis nas estações de abastecimento. E a prova acabou finalizando com uma distância total de quase 90km.

Eu, particularmente, nunca participei de uma prova tão mal executada. Falhas de planejamento, distorções de distância, cortes indevidos, falhas de abastecimento, excesso de trechos de estrada. Após tantos erros, os atletas que reclamaram, receberam indiferença. Os comentários negativos a organização pelas redes sociais foram simplesmente deletados. Foram muitos equívocos no pré-prova, durante e pós-prova. A The North Face deveria seriamente rever sua estratégia de provas no Brasil.

Devemos sim aprender com nossos erros. As provas de trail running no Brasil ainda são muito recentes e tem muito para evoluir. Mas os atletas devem entender que só porque o trail running é considerado uma competição bruta, no sentido de rusticidade, não significa que devem se submeter a qualquer tipo de situação. Falhas de organização acontecem e fazem parte natural deste processo evolutivo. Não se trata simplesmente de treinar mais ou menos, organizadores devem fornecer informações claras e precisas para então exigir desempenho.