terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Como estar pronto para o inesperado?

Por André Caúla

"Chegamos a outra margem do cristalino lago Pirehueico, olhei pro relógio que marcava 40.3 km, exatamente o que estava previsto para aquela etapa da prova. Me sentia exausto e confuso, pois não havia ali toda aquela aglomeração típica de uma chegada. Rapidamente percebemos que não era o fim, tínhamos que encontrar forças e prosseguir. Mas, meus músculos já não me permitiam correr. O terreno estreito e pedregoso das margens do lago, nos oferecia uma sequência inesperada de difíceis obstáculos em intermináveis cinco quilômetros extras. Após uma caminhada lenta e dolorosa, finalmente concluímos a segunda etapa dos 3 dias que compõe este desafio. Mas as surpresas não haviam terminado. Nossas malas e equipamentos não tinham chegado. Não haviam roupas secas para nos aquecer. Não haviam suplementos alimentares para ajudar nossa recuperação. Não haviam colchões infláveis e sacos de dormir para nos confortar. Não haviam pratos e talheres para comermos civilizadamente. Civilizadamente? Mas não era exatamente disso que vocês se distanciavam? Não era exatamente isso que buscavam? Correr livre na natureza em locais selvagens e distantes da civilização?"

Isto foi em 2012 em nossa primeira participação no El Cruce de los Andes, onde a neve, o frio e os problemas de logística fizeram com que esta dura competição se tornasse única e especial. Mas um pensamento me ocorria: Será que deveria ter transportado mais agasalhos? Deveria ter treinado e me preparado mais?


Quando participei em 2013, me sentia mais seguro. Corri com mais agasalhos e mais equipamentos para evitar surpresas. Mas esta foi exatamente "a surpresa" naquele ano. Um sol escaldante e um calor desolador, tomaram conta daquelas etapas. Correr por aquele deserto escaldante, com a mochila cheia de casacos era uma contradição. Além disso, a falta de água, me fazia refletir: Deveria ter levado menos equipamentos e mais água?


Este ano de 2014, me sentia bem mais experiente, não haveriam imprevistos. Mais um engano. Um incansável vento frio e uma incessante chuva fina assolaram todos os competidores, tornando esta uma das edições mais difíceis de todos os Cruces. Uma imobilizante lama, roupas molhadas e um frio polar., me fazia novamente pensar: Faltaram agasalhos? O que eu deveria ter feito diferente?

Então...  Como se preparar para esta prova? Como se prevenir para as possíveis alterações climáticas? Como evitar bolhas e lesões ao longo de corridas tão extremas? Como estar preparado para subidas tão íngremes, para descidas tão escorregadias, para um frio congelante ou para um calor sufocante? Como agir sem seus confortáveis equipamentos ou mesmo sem um simples gole de água? E aqueles treinos que eu não fiz? As planilhas que não completei, fizeram esta diferença? Me faltou capacidade ou comprometimento? Mas afinal, como adivinhar o que a vida nos reserva? Como estar pronto para o inesperado?


sexta-feira, 27 de junho de 2014

Western States Endurance Run

Por Marcos Thunder

Esse final de semana, acontece uma das corridas de trilhas mais importantes de todas. É a famosa Western States Endurance Run. São 100 milhas ou 161km de muita trilha pelas montanhas da Sierra Nevada. A Wester States é considerada por muitos como uma corrida de descida, mas ela tem suas subidas duras também, algumas travessias de rios, varios riachos e cânions abafados.

A corrida segue por uma parte da famosa Western States Trail, que vai de Salt Lake City no Utah até Sacramento na California. Essa trilha era usada originalmente por mineiros de ouro e prata por volta de 1850.

A largada é dada as 05:00 da manhã no ultimo final de semana de Junho no Vale Squaw na Califórnia (lugar que recebeu as Olimpíadas de inverno de 1960), os corredores devem chegar até as 10:59:59 (30 horas de prova) do dia seguinte (domingo) em Auburn na California, na pista de atletismo do Colégio Placer High para receberem o prêmio, a fivela de bronze, enquanto os que terminam em menos de 24h ganham a cobiçada fivela de prata. A maior parte da trilha está em áreas selvagens e de difícil acesso, em sua maioria sendo somente acessível a pé, cavalo ou helicóptero.

A História
Gordy na pista em Placer High

A Western States foi corrida pela primeira vez por Gordy Ainsleigh em 1974. Gordy já havia participado da Western States Trail Ride (Tevis Cup) em 1971 e 1972, uma corrida a cavalo, mas em 1973 foi forçado a parar porque seu cavalo teve problemas na altura do kilometro 46. Em 1974, com o apoio e inspiração de Drucilla Barnes, a primeira mulher a ganhar a Tevis Cup e secretária da Wester States Trail Foundation, Gordy se juntou aos cavalos na linha de largada para ver se ele conseguiria completar o percurso a pé. Vinte e três horas e quarenta e dois minutos (23:42) depois, Gordy chegou a Auburn provando que um corredor poderia correr os 161km em um dia.

Em 1975, Ron Kelley correu 157km do percurso antes de desistir. Em 1976 Ken "Cowman" Shirk se tornou o segundo corredor a completar o percurso ao lado dos cavalos, com Gordy servindo de pacer(1) nos últimos 40km.

Em 1977, 16 corredores se inscreveram e largaram com os cavalos em Squaw, enquanto ainda era a Tevis Cup. Desses 16 corredores, 13 foram parados ou forçados a parar até a metade da corrida. Dos 3 que sobraram, somente um terminou abaixo das 24h (limite dado a prova a cavalos) e os outros 2 terminaram em 28 horas e 36 minutos, dando origem ao premio da fivela de bronze  Assim nascia a Western States, foi separada da Tevis Cup e tornou-se a Western States Endurance Run, que passou a acontecer em datas diferentes da Tevis Cup.

Em 1978, 63 corredores largaram e 30 finalizaram a primeira Western States Endurance Run.

Hoje, a corrida tem o número máximo de 400 corredores, Gordy continua correndo com o número 0 até hoje.

Aproximadamente 1.500 voluntários fazem essa corrida acontecer todos os anos.

O Percurso

Dada a largada, os corredores enfrentarão 5.500m de subida e um total de 7.000m de descida antes de chegar a Auburn.

Squaw está a 1.889 metros do nível do mar, logo de cara, tem uma subida de 778 metros até o Passo Emigrant (2.667 metros) tudo isso nos primeiros 7,2km de prova.

O percurso é o que segue uma rota básica usada desde 1986, sendo alterado somente quando as condições climáticas não permitem a passagem.

Quando os corredores chegarem a 125km de prova, enfrentarão a travessia do American River, um rio perigoso em que a organização fixa uma corda de margem a margem para a travessia e membros da organização estarão nas margens para orientar os corredores.

A temperatura do percurso pode variar de -6ºC até 43ºC, portanto os corredores devem estar preparados para todas as variações climáticas.

Entre o Vale Squaw e a pista do Colégio Placer High, os corredores passarão por 25 pontos de apoio, ou aid stations, aonde poderão reabastecer suas garrafas e comer o que desejarem para continuar o percurso. O grupo de apoio de cada corredor só pode ter acesso a 12 aid stations, as outras estão em pontos tão remotos que o acesso é inviável, ficando comandados por seus voluntários.

Todos os corredores devem passar por check ups médicos em determinados pontos da prova, a equipe médica tem autoridade completa para avaliar as condições dos corredores, permitindo ou não que um corredor continue a corrida. Se um participante se negar a passar por esses check ups, os médicos podem desqualificar-lo da prova.





Participantes notórios

Esse ano a corrida está repleta de talentos. Muitos corredores norte-americanos e alguns estrangeiros importantes no mundo do trail run. Abaixo listarei alguns dos mais importantes:

Homens:

Rob Krar

Rob Krar (EUA)

Rob ficou em segundo em 2013, é um corredor muito forte e rápido e é o mais esperado para levar pra casa o troféu da prova. Ano passado, Rob ganhou várias provas importantes, esse ano ele ficou em segundo lugar na Lake Sonoma 50 (80km) e focou seus treinos para a Western States.

Ryan Sandes (África do Sul)

Ryan ao contrário de Rob, já participou de várias provas esse ano, ganhando a Transgrancanária, segundo lugar na Ultra-Trail Mount Fuji e quebrando o record da travessia Drakensber Grand Traverse na África. Ryan também é um corredor muito forte e inteligente. Em 2012, ele ficou em segundo lugar na Western States, com certeza vai vir com tudo esse ano.

Miguel Heras (Espanha)

Miguel é um corredor muito rápido e astuto. Ano passado ficou em segundo na UTMB. Mês passado, Miguel levou pra casa o título do Campeonato de Ultramaratona da Espanha quando ganhou esse evento em Penyagolosa. Com certeza é um corredor muito forte e que sabe o que é uma corrida longa, mas também tem muitos problemas de lesões devido aos treinos e corridas.

Mulheres:

Pam Smith

Pam Smith (EUA)

Pam é a campeã do ano passado, fechou a prova em 18:37:21, levando pra casa o troféu de leão da montanha. Segundo Pam, ano passado ela fez a corrida perfeita, ela espera conseguir repetir o feito esse ano. Ano passado, em Dezembro, ela bateu o record de 100 milhas em pista. Esse ano ela treinou duro para a Western States e no ultimo final de semana, ela correu a Beacon Rock 25k batendo o record do percurso em 13 minutos como preparativo para o grande dia.

Nikki Kimball (EUA)

Nikki é veterana, ano passado ficou em segunda, com o tempo de 19:21:43 mesmo não estando com o seu condicionamento no máximo. Ela já ganhou a WS três vezes e já completou essa prova oito vezes. Esse ano, Nikki ficou em primeiro lugar na Marathon des Sables e também na Silver State 50 Mile (80km).

Meghan Arbogast (EUA)

Meghan ficou em quarta ano passado com o tempo de 19:30:50. Ela tem 52 anos, mas continua sendo um perigo para as outras corredoras. Seu melhor tempo no percurso da WS é de 18:50, e gostaria muito de conseguir bater o tempo de 18:30 algum dia. Meghan já terminou a WS sete vezes. Desde o ano passado ficou em 13ª na UTMB, ganhou Bandera 100k, quinta na Tarawera Ultramarathon.

Infelizmente não teremos nenhum participante brasileiro esse ano. Da America do Sul, nós teremos Gustavo Reyes da Argentina, Rene Castel do Chile e Juan Guillermo Cobo da Colômbia.

Segue a lista completa dos inscritos na prova: http://www.wser.org/2014-entrants-list/

Qualificação

Para 2015, para concorrer a loteria, os tempos abaixo devem ser conquistados:


100 km abaixo de 16h ou;

100 milhas (161km) dentro do tempo estipulado pela corrida.


Segue a lista de corridas qualificatórias reconhecidas pela organização da WS:


No Brasil, nós só temos uma corrida classificatória, a Brazil 135, uma corrida de 135 milhas ou 217km pelas montanhas de Minas Gerais.

Na Argentina, nós temos a Patagonia Run, uma prova de 100km com o tempo limite de 16h para a classificação.

Devido à demanda cada vez maior, a organização da prova decidiu cortar algumas corridas da lista classificatória, as corridas classificatórias mais curtas são de 100km.

Premiação
Pam Smith e Tim Olson


O primeiro homem e a primeira mulher a completar o percurso em 24h terá o nome gravado no troféu Wendell Robie Cup e o troféu do Puma de bronze.

Todos atletas que completam a corrida, além da fivela, recebem um medalhão de finisher.
O homem mais velho e a mulher mais velha, recebem um premio especial.

Qualquer corredor que cruzar a linha de chegada depois de 30h de prova, não terá seu nome como um finisher.

Se um corredor terminar a prova 10 vezes abaixo de 24h, esse será presenteado com uma fivela de prata de 1.000 milhas / 10 dias.

O corredor que completar a prova 10 vezes, em até 30h, será presenteado com uma fivela de prata de 1.000 milhas.

Alguns corredores já foram presenteados com as fivelas de 2.000 milhas e 2.500 milhas, tendo terminado 20 vezes e 25 vezes a prova respectivamente.

Fatos interessantes


Record da prova:
Tim Olson em 2012 - 14:46:44
Ellie Greenwood em 2012 - 16:47:19


Tim Twietmeyer completou a corrida 25 vezes abaixo de 24h, ganhando 5 vezes.

Em 2005, Scott Jurek ganhou a prova pela 7ª vez consecutiva.

Ann Trason ganhou a Western States 14 vezes.

Em 2008 a corrida foi cancelada devido a inúmeros focos de incêndio pela região.

Em 2012, Ellie Greenwood conseguiu bater o record de 1994 de Ann Trason por quase 1h, marcando seu nome na história da prova com o tempo de 16:47:19. No mesmo ano, Tim Olson correu o percurso em menos de 15h (14:46:44), quebrando o record anterior de 2010, que era de Geoff Roes 15:07:04. Ryan Sandes também bateu o record de Geoff Roes em 2012, mas ficou com o segundo lugar, seu tempo foi de 15:03:56.

143 corredores norte americanos e 3 corredores estrangeiros largaram do Vale Squaw em 1979. Deste então, a prova atrai corredores do mundo todo, sempre chegando ao seu número máximo de participantes.

Tim Olson batendo o record da prova

(1) Pacer: um atleta designado para ajudar o corredor da prova, ele não faz parte da prova, mas sim do apoio ao corredor que está correndo a prova. Geralmente o Pacer "pega" seu corredor nas ultimas partes da corrida, quando o corredor já está muito cansado, o Pacer o ajuda em partes difíceis ou correr noite adentro, fazendo com que seu corredor se mantenha hidratado, alimentado e motivado. Com exceção de uma corrida que eu conheço (Leadville 100), os Pacers não são permitidos de carregar nada para seus corredores, somente ajudam psicologicamente e motivacionalmente.

Referências


1. Western States Endurance Run - Wikipedia
2. iRunFar.com
3. Site oficial Western States Endurance Run

domingo, 1 de junho de 2014

O Código de Conduta dos Corredores de Montanha

Por André Caúla

 As montanhas e florestas estão cada vez mais acessíveis e frequentadas por atletas que buscam estreitar o contato com a natureza. Lembro bem que há pouco tempo atrás, para se competir nestes locais, nos limitávamos a algumas provas do circuito XTerra, ou tínhamos que recorrer a eventos internacionais. Então, é com grande felicidade e certa preocupação, que observo o grande crescimento na procura e oferta de competições esportivas nestes últimos grandes refúgios de liberdade. Entretanto, muitos esquecem que a beleza e o perigo moram juntos. Muitas vezes, atletas acostumados a correr no asfalto da cidade e que migram para experimentar a natureza, podem se encontrar em situações nas quais há risco real de acidentes. Apesar de compartilharem o mesmo termo, as corridas de rua e as corridas em trilhas e/ou montanhas são esportes muito diferentes e distintos. Enquanto, durante uma corrida de rua, no caso de necessidade, o atleta pode buscar um transporte e seguir para casa ou um hospital mais próximo, nas corridas de montanha uma ajuda externa pode simplesmente não estar disponível e, neste caso, estar com equipamentos adequados, kit de primeiros socorros ou mesmo depender da solidariedade de outro atleta pode ser fundamental. Afinal, como o amigo George Volpão definiu bem, "É mais sobre montanhas que sobre corridas". Neste sentido, alguns princípios morais e éticos, tão esquecidos pelos homens no atual cenário político-social em que vivemos, devem ser "relembrados" e praticados. Os atletas que se propõe a participar destas competições em locais distantes e de difícil acesso devem individualmente assumir a responsabilidade e aceitar os riscos inerentes a esta atividade. Devem compreender que suas ações não devem expor a perigo nem o próximo, nem a si próprio e nem o meio ambiente. E, principalmente, deve ter consciência de que sua atitude perante outras pessoas ou situações, pode ser determinante para a vida ou para morte.

Já que estamos experimentando esta abundância de competições, acredito sinceramente que é melhor e mais fácil, os atletas e organizadores começarem as coisas de maneira séria e fundamentada nos princípios corretos, criando uma comunidade esportiva consciente e solidária, ao invés de tentar corrigir valores deturpados ou corrompidos em um futuro talvez distante. Como o objetivo de orientar os corredores em trilhas e montanhas, descrevi aqui alguns valores éticos e morais baseados na Associação Internacional de Corridas em Trilhas (ITRA). Incluí também uma das compilações mais completas sobre os valores e visões dos esportes de montanha, a Declaração do Tirol, promulgada em Innsbruck na Áustria em 2002, que contêm um conjunto de valores, princípios morais e padrões de conduta que proporcionam uma orientação sobre a melhor prática em esportes de montanha. Esta foi uma importante iniciativa para definir os valores fundamentais nos esportes de montanha, que incluem caminhadas, corridas, escaladas ou montanhismo. Recomendo fortemente sua leitura. Compartilhei no final do texto, a Declaração do Tirol não em sua íntegra, mas somente os conceitos relacionados e aplicáveis as corridas em montanhas.


CÓDIGO DE CONDUTA DOS CORREDORES DE MONTANHA: VALORES ÉTICOS E MORAIS

AUTENTICIDADE
A autenticidade é o primeiro valor da corrida em trilhas e montanhas. Em suas origens, a corrida nasceu da motivação dos atletas para praticar o seu desporto em contato com ambientes naturais, de modo a experimentar a beleza da paisagem e aprender a evoluir sem artifícios em um ambiente que é exigente tanto para o corpo, quanto para o espírito. A corrida em trilhas e montanhas é um esporte autêntico, porque cria um confronto entre o participante e o ambiente natural, como fonte de inspiração, superação pessoal, mas também de harmonia. Como uma atividade social, a corrida em trilhas e montanhas promove relações humanas baseadas na simplicidade, convívio mútuo, partilha e respeito às diferenças. 

HUMILDADE
Ao praticar corrida em trilhas, uma atividade em campo aberto, a humildade é um comportamento que é adaptado tanto para o ambiente natural como a si mesmo. No ambiente natural, ela se baseia levando em consideração os perigos naturais existentes. Neste sentido, ter humildade em face a natureza, supõe não somente a capacidade de mostrar cautela, mas também tomar decisões difíceis como por exemplo renunciar a corrida/competição, ou ao projeto inicialmente previsto, face a situações que coloquem em risco a saúde ou mesmo a vida do corredor.

Em relação ao que diz respeito a cada indivíduo, a humildade é baseada na consciência e conhecimento de seus limites, de suas reais habilidades, de modo a não colocar em risco sua integridade física ou mental.

Como um tipo de comportamento, a humildade é uma atitude inseparável de observar e reconhecer para uma melhor compreensão dos princípios que regem os ambientes naturais ou os fundamentos da prática de um esporte intenso em ambientes naturais.

FAIR-PLAY
Fair Play, ou espírito esportivo, significa jogo justo, limpo e indica a aceitação leal das regras, não só ao conceito mas também no espírito que preside a sua definição.

Para os corredores, o fair-play significa respeitar o regulamento da corrida, não trapacear, não violar as regras, se recusar a utilizar todas as formas de doping, mas também incorporar os valores humanos da corrida em trilhas, mantendo a ética no meio esportivo, onde os praticantes devem procurar jogar de maneira que não prejudiquem o adversário de forma proposital, preservar a ajuda mútua, solidariedade e respeito com todos os outros corredores.

EQUIDADE
É na busca de um equilíbrio justo, com base na imparcialidade e igualdade de oportunidade a partir do qual cada corredor deverá se beneficiar. 

As corridas em trilha estão abertas para todos os corredores. Os regulamentos são concebidos de modo a que se apliquem igualmente a todos os interessados. Todos os atletas estão sujeitos às mesmas condições e têm os mesmos direitos e os mesmos deveres. As medidas tomadas para acolher os atletas nunca devem dificultar a participação dos demais corredores.

RESPEITO
O princípio do respeito abraça o respeito pelos outros, o respeito por si mesmo e o respeito ao meio ambiente.

Respeito pelos outros
Respeitar os outros significa compreender e aceitar suas diferenças e agir de tal forma a não incomodar ou prejudicar outras pessoas. É igualmente o entendimento de que a corrida acontece em ambientes que têm a sua própria cultura e tradições, portanto deve-se respeitar a população local, sua cultura e seus costumes. 

Cada corredor também se compromete a respeitar todas as pessoas encontradas durante o curso da trilha (outros corredores, caminhantes, etc.), que também estão se beneficiando do contato com a natureza e possuem os mesmos direitos que todos.

Cada corredor concorda em conhecer e respeitar as normas da corrida em que eles escolheram para participar.

Respeito por si mesmo
A prática de corrida em trilhas pode acarretar riscos e a busca por prazer e/ou melhor desempenho, em hipótese alguma deve justificar maior exposição a perigos a saúde. Substâncias de doping e o uso abusivo de auto-medicação devem ser evitados. Todo corredor deve tomar cuidado para não ultrapassar os seus próprios limites, a ponto de afetar sua integridade física ou moral.

Respeito ao meio ambiente
As corridas acontecem em ambientes naturais frágeis. As montanhas e florestas são extremamente vulneráveis ao desequilíbrio ecológico, tanto natural como provocado pelo homem. Todos os coredores, bem como os organizadores e staffs devem assumir o compromisso de proteger o equilíbrio natural.

Os organizadores de corridas em trilhas devem fazer todo o possível para reduzir o impacto negativo ligado à execução de suas corridas. Eles devem compartilhar informações e fazer esforços para educar os participantes a fim de contribuir para a conscientização geral da fragilidade do ambiente natural. Cada organizador irá identificar os riscos ambientais gerados pela seu evento e propor ações concretas para reduzir os riscos ao mínimo, tais como incentivar o uso de transportes públicos para largada, evitar a abertura de novas trilhas, não distribuir copos ou garrafas plásticas descartáveis, remover as marcações após o término da competição, etc.

Cada corredor deve assumir um compromisso de adotar o comportamento mais relevante para minimizar seu impacto sobre o terreno através do qual se passa. Os corredores devem se comprometer a não jogar resíduos nas trilhas e manter-se nas trilhas pré-determinadas, em hipótese alguma abrir novos caminhos, além de não cortar a vegetação.

Juntos, os membros das corridas em trilhas devem agir como embaixadores para a promoção e conservação dos ambientes naturais.

SOLIDARIEDADE
A solidariedade é um valor que é praticado e compartilhado pelos habitantes no coração das regiões naturais, que podem se tornar hostis e, conseqüentemente, a ajuda mútua pode ser necessária para se progredir melhor em conjunto ou simplesmente para sobreviver. Em nome do princípio da solidariedade, cada corredor em campo é convidado a dar prioridade para ajudar alguém em perigo ou dificuldade, onde quer que estejam e em qualquer circunstância, desde que isso não o coloque também em risco.


A DECLARAÇÃO DO TIROL SOBRE A BOA PRÁTICA NOS ESPORTES DE MONTANHA

“Ampliem seus limites, elevem seus espíritos e almejem o topo”

Por todo o mundo, milhões de pessoas praticam montanhismo, caminhada, trekking e escalada em rocha. Em muitos países, esportes de montanha se tornaram um fator significante no dia-a-dia. 

Quase nenhuma outra atividade engloba tão amplo espectro motivacional como os esportes de montanha. Eles proporcionam às pessoas a oportunidade de concretizar objetivos pessoais e de participar de uma atividade significativa por toda a vida. Os motivos para estar ativo nas montanhas e sobre as rochas se estendem de benefícios da saúde, prazer do movimento, contato com a natureza e incentivos sociais à emoção da exploração e da aventura. 

A Declaração do Tirol sobre a Melhor Prática em Esportes de Montanha, promulgada pela Conferência sobre o Futuro dos Esportes de Montanha em Innsbruck, em 8 de setembro de 2002, contém um conjunto de valores e máximas que proporcionam uma orientação sobre a melhor prática em esportes de montanha. Não são regras ou instruções detalhadas – no lugar disso, elas: 

1. Definem os valores fundamentais atuais nos esportes de montanha 
2. Contêm princípios e padrões de conduta 
3. Formulam os critérios de ética para tomada de decisões em situações incertas 
4. Apresentam princípios éticos pelos quais o público pode julgar os esportes de montanha 
5. Introduzem a iniciantes os valores e princípios morais de seu esporte. 

É objetivo da Declaração do Tirol ajudar a concretizar o potencial inato dos esportes de montanha para recreação e para crescimento pessoal, e também para promoção de desenvolvimento social, compreensão cultural e consciência ambiental. Para essa finalidade, a Declaração do Tirol se vale de valores e códigos de conduta não escritos inerentes ao esporte e os expande para satisfazer as demandas de nosso tempo. Os valores fundamentais em que a Declaração do Tirol é baseada valem para todos os praticantes de esportes de montanha de todo o mundo – sejam eles caminhantes e andarilhos, escaladores esportivos ou montanhistas buscando estender seus limites em grandes altitudes. Mesmo que algumas das orientações de conduta sejam relevantes apenas para uma pequena elite, muitas das propostas formuladas na Declaração do Tirol são endereçadas à comunidade de esportes de montanha como um todo. Com essas sugestões nós desejamos atingir nossos jovens, pois eles são o futuro dos esportes de montanha. 

A Declaração do Tirol é um apelo para que: 
· Aceitem os riscos e assumam responsabilidade; 
· Equilibrem seus objetivos com suas habilidades e equipamentos; 
· Joguem por meios razoáveis e relatem honestamente; 
· Esforcem-se pela melhor prática e nunca parem de aprender; 
· Sejam tolerantes, respeitem e ajudem uns aos outros; 
· Protejam o caráter selvagem e natural das montanhas e paredes; 
· Apoiem as comunidades locais e seu desenvolvimento sustentável. 

A Declaração do Tirol se baseia na seguinte hierarquia de valores: 

:: Dignidade humana: a premissa de que seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos e de que devem tratar uns aos outros em espírito de fraternidade. Atenção particular deve ser dada para equalizar os direitos de homens e mulheres. 

:: Vida, liberdade e felicidade: como direitos humanos inalienáveis e com a responsabilidade especial nos esportes de montanha de ajudar a proteger os direitos das comunidades em áreas montanhosas. 

:: Proteção da natureza: como um compromisso para assegurar o valor ecológico e as características naturais de montanhas e paredes em todo o mundo. Isso inclui a proteção de espécies ameaçadas de flora e fauna, de seus ecossistemas e da paisagem. 

:: Solidariedade: com uma oportunidade de, por meio da participação em esportes de montanha, promover trabalho em equipe, cooperação e compreensão, e superar barreiras em função de sexo, idade, nacionalidade, nível de habilidade, origem social ou étnica, religião ou crença. 

:: Realização pessoal: como uma chance de, por meio da participação em esportes de montanha, progredir significativamente em metas importantes e lograr satisfação pessoal. 

:: Verdade: como reconhecimento de que a honestidade em esportes de montanha é essencial para a avaliação de feitos. Se a arbitrariedade toma o lugar da verdade, torna-se impossível valorar a performance na escalada. 

:: Excelência: como uma oportunidade de, por meio da participação em esportes de montanha, esforçar-se para atingir metas ainda inalcançadas e para estabelecer padrões mais elevados. 

:: Aventura: como reconhecimento de que, em esportes de montanha, a administração do risco por meio de avaliação criteriosa, habilidades e responsabilidade pessoal é um fator essencial. A diversidade de esportes de montanha permite a qualquer um escolher sua própria aventura, na qual habilidades e perigos estejam em equilíbrio. 

Os Artigos da Declaração do Tirol 

As Máximas e as Diretrizes da Declaração do Tirol 

:: Artigo 1 – Responsabilidade Individual 

MÁXIMA 

Montanhistas e escaladores praticam seus esportes em situações nas quais há risco de acidentes e em que a ajuda externa pode não estar disponível. Com isso em mente, eles se dedicam a essas atividades sob sua própria responsabilidade, sendo de sua conta sua própria segurança. As ações de um indivíduo não devem expor a perigo nem o próximo, nem o meio ambiente. 

1. Nós escolhemos nossas metas de acordo com nossas reais habilidades ou com as da equipe e de acordo com as condições na montanha. Desistir da escalada deve ser uma opção válida. 

2. Nós nos asseguramos de que temos o treinamento adequado para nosso objetivo, de que planejamos nossa escalada ou caminhada cuidadosamente, tendo providenciado as preparações necessárias. 

3. Nós nos asseguramos de que estamos equipados apropriadamente em cada excursão e que sabemos como usar o equipamento. 

:: Artigo 2 – Espírito de Equipe 

MÁXIMA 

Membros de uma equipe devem estar dispostos a fazer concessões para equilibrar os interesses e habilidades de todo o grupo. 

1. Cada membro da equipe deve estimar seus companheiros de equipe e deve assumir responsabilidade pela segurança deles. 

2. Nenhum membro de equipe deve ser deixado sozinho se isso colocar em risco seu bem-estar. 

:: Artigo 3 – Comunidade de Escalada e Montanhismo 

MÁXIMA 

Nós devemos a todas as pessoas que encontramos nas montanhas ou nas rochas uma porção igual de respeito. Mesmo em condições isoladas e em situações estressantes, nós não devemos nos esquecer de tratar os outros da maneira como queremos que nos tratem. 

1. Nós fazemos tudo o que podemos para não expor os outros a perigo e nós avisamos os outros sobre perigos em potencial. 

2. Nós asseguramos que ninguém seja discriminado. 

3. Como visitantes, nós respeitamos as regras locais. 

4. Nós não atrapalhamos ou perturbamos os outros mais do que o necessário. Nós damos passagem a grupos mais velozes. Nós não ocupamos vias que outros estejam aguardando para fazer. 

5. Nossos relatórios de escaladas refletem com veracidade os eventos reais em detalhe. 

:: Artigo 4 – Visitando Países Estrangeiros 

MÁXIMA 

Como convidados em culturas estrangeiras, nós devemos sempre nos comportar de forma educada e com comedimento em relação aos nativos – nossos anfitriões. Nós vamos respeitar montanhas sagradas e outros lugares sagrados, ao mesmo tempo em que buscaremos beneficiar e ajudar a economia local e os nativos. Compreensão de culturas estrangeiras é parte de uma experiência completa de escalada. 

1. Sempre trate as pessoas do país anfitrião com simpatia, tolerância e respeito. 

2. Cumpra estritamente qualquer regulamento de escalada implementado pelo país anfitrião. 

3. É aconselhável ler sobre a história, sociedade, estrutura política, arte e religião do país a ser visitado antes de embarcar na viagem para melhorar nosso entendimento sobre suas pessoas e seu ambiente. No caso de incerteza política, busque conselho oficial. 

4. É sábio desenvolver algumas habilidades básicas na língua do país anfitrião: formas de saudação, por favor e obrigado, dias da semana, hora, números etc. É sempre impressionante ver como esse investimento tão pequeno melhora a qualidade da comunicação. Dessa forma, nós contribuímos para o entendimento entre as culturas. 

5. Nunca deixe passar uma oportunidade de compartilhar suas habilidades de escalada com locais interessados. Expedições conjuntas com escaladores nativos são o melhor cenário para troca de experiências. 

6. Nós evitamos a todo custo ofender os sentimentos religiosos de nossos anfitriões. Por exemplo, nós não devemos mostrar pele descoberta em lugares em que isso seja inaceitável por razões religiosas ou sociais. Se algumas expressões de outras religiões estão além de nossa compreensão, nós somos tolerantes e evitamos julgar. 

7. Nós damos toda assistência possível a habitantes locais em necessidade. Um médico de expedição está sempre em posição de fazer uma diferença decisiva na vida de uma pessoa extremamente doente. 

8. Para beneficiar economicamente as comunidades de montanha, nós compramos produtos regionais, se viável, e nos valemos dos serviços locais. 

9. Nós somos encorajados a assistir comunidades de montanha iniciando e sustentando empreendimentos que favoreçam o desenvolvimento sustentável, como por exemplo os serviços de treinamento e educação ou iniciativas econômicas ecologicamente compatíveis. 

:: Artigo 5 – Responsabilidades de Guias de Montanha e outros Líderes 

MÁXIMA 

Cada guia de montanha profissional, líder e membro de grupo deve entender seu respectivo papel e respeitar as liberdades e direitos de outros grupos e indivíduos. Para serem guias preparados, líderes e membros de grupos devem entender as demandas, os perigos e os riscos do objetivo, ter as habilidades necessárias, experiência e equipamento adequado, e checar o tempo e outras condições. 

1. O guia ou líder informa o cliente ou o grupo sobre o risco inerente em uma escalada e sobre o nível real de perigo, e, se os participantes têm experiência suficiente, envolve-os no processo de tomada de decisão. 

2. A via selecionada deve estar adequada à habilidade e à experiência do cliente ou do grupo de maneira a assegurar que a experiência seja agradável e enriquecedora. 

3. Se necessário, o guia ou líder reconhece o limite de sua própria habilidade e, quando apropriado, indica colegas mais capazes para os clientes ou grupos. É responsabilidade dos clientes e dos membros de grupos deixar claro se eles acreditam que um risco ou perigo é muito grande e se o retorno ou opções alternativas devem ser seguidas. 

4. Em circunstâncias como escaladas extremas e ascensões em alta montanha, guias e líderes devem informar com cuidado seus clientes e grupos para se certificarem de que todo mundo está totalmente alertado sobre os limites de suporte que guias e líderes podem prover. 

5. Guias locais informam a colegas visitantes sobre as particularidades características de sua área e sobre as condições atuais. 

:: Artigo 6 – Emergências, Morbidez e Morte 

MÁXIMA 

Para estarem preparados para emergências e situações envolvendo acidentes sérios e morte, todos os praticantes de esportes de montanha devem entender claramente os riscos e perigos e a necessidade de se ter habilidades, conhecimentos e equipamentos adequados. Todos os praticantes precisam estar prontos para ajudar os outros no caso de uma emergência ou acidente, e também estar preparados para encarar as conseqüências de uma tragédia. 

1. O socorro a alguém em apuros tem absoluta prioridade sobre atingir objetivos que estipulamos para nós mesmos nas montanhas. Salvar uma vida ou reduzir o dano à saúde de uma pessoa ferida é muito mais valoroso do que a mais difícil de todas as conquistas. 

2. Numa emergência, se ajuda externa não está disponível e nós estamos em posição de ajudar, devemos estar preparados para dar todo o suporte que podemos às pessoas em apuros, desde que seja viável sem nos expor ao perigo. 

3. Deve ser proporcionado a quem esteja seriamente ferido ou moribundo todo conforto possível, bem como lhe deve ser oferecido suporte de preservação de vida. 

4. Em uma área remota, se não for possível recuperar o corpo, deve ser registrada a localização da forma mais precisa possível, bem como quaisquer indicações da identidade do morto. 

5. Objetos como câmera, diário, notebook, fotos, cartas e outros artefatos pessoais devem ser guardados e entregues aos familiares. 

6. Sob nenhuma circunstância podem ser publicadas fotos do morto sem o consentimento prévio da família. 

:: Artigo 7 – Acesso e Conservação 

MÁXIMA 

Nós acreditamos que a liberdade de acesso a montanhas e paredes de maneira responsável é um direito fundamental. Nós devemos sempre praticar nossas atividades de uma forma ambientalmente sensível e devemos ser proativos na preservação da natureza. Nós respeitamos restrições a acesso e regulamentos acordados entre escaladores e organizações de conservação de natureza e autoridades. 

1. Nós respeitamos as medidas de preservação de ambientes de parede e montanha e da vida selvagem que eles sustentam, e nós encorajamos nossos companheiros escaladores a fazer o mesmo. Evitando fazer barulho, nós nos esforçamos na redução da perturbação da vida selvagem ao mínimo. 

2. Se possível, nós nos locomovemos para nossos destinos usando transporte público ou outros transportes coletivos para minimizar o tráfico nas estradas. 

3. Para evitar erosão e não perturbar a vida selvagem, nós permanecemos nas trilhas durante aproximações e descidas e, quando fora da trilha, escolhemos a rota menos agressiva ao ambiente. 

4. Durante os períodos de acasalamento e nidificação de espécies que habitam as montanhas, nós respeitamos restrições sazonais de acesso. Logo que tomamos ciência de qualquer atividade de acasalamento, nós devemos passar adiante essa informação para outros escaladores e assegurar que eles fiquem fora da área de nidificação. 

5. Durante conquistas, nós tomamos o cuidado de não ameaçar o biótopo de espécies raras de plantas e animais. Ao equipar ou reequipar vias, nós devemos tomar todas as precauções para minimizar seu impacto ambiental. 

6. As conseqüências da popularização de áreas através de retrogrampeação devem ser cuidadosamente consideradas. O aumento de números pode causar problemas de acesso. 

7. Nós minimizamos o dano à rocha por meio da utilização da técnica de proteção menos prejudicial. 

8. Nós não apenas carregamos nosso próprio lixo de volta para a civilização, como também catamos qualquer detrito deixado por outros. 

9. Na ausência de instalações sanitárias, nós mantemos uma distância adequada de casas, locais de acampamento, córregos, rios e lagos durante a defecação e tomamos todas as medidas necessárias para evitar dano ao ecossistema. Nós procuramos não agredir o senso estético das pessoas. Em áreas muito freqüentadas com um baixo nível de atividade biológica, os escaladores têm o encargo de carregar de volta suas fezes. 

10. Nós mantemos o local de acampamento limpo, evitando gerar lixo tanto quanto possível ou dispondo dele adequadamente. Todos os materiais de escalada – cordas fixas, barracas e garrafas de oxigênio – devem ser removidos da montanha. 

11. Nós mantemos o consumo de energia no mínimo. Especialmente em países com falta de lenha, nós evitamos ações que possam contribuir para a destruição das florestas. Em países com florestas ameaçadas, nós precisamos levar combustível suficiente para preparar comida para todos os participantes da expedição. 

12. Turismo de helicóptero deve ser minimizado onde for prejudicial à natureza ou à cultura. 

13. Em conflitos sobre matérias de acesso, proprietários de terra, autoridades e associações devem negociar soluções satisfatórias para todas as partes. 

14. Nós temos papel ativo na implementação de regulamentos, especialmente dando publicidade a eles e implementando a infraestrutura necessária. 

15. Ao lado de associações de montanhismo e outros grupos de conservação, nós somos proativos a nível político no que diz respeito à proteção de habitats naturais e do ambiente. 

:: Artigo 8 – Estilo 

MÁXIMA 

A qualidade da experiência e a forma como resolvemos o problema é mais importante do que se o resolvemos. Nós nos esforçamos por não deixar rastros. 

1. Nós almejamos preservar o caráter original de todas as escaladas, em especial aquelas com importância histórica. Isso significa que os escaladores não devem aumentar a quantidade de proteções fixas em vias existentes. A exceção é quando há um consenso local – incluindo a aprovação dos conquistadores – para mudar o nível de proteções fixas por meio da colocação de novas peças ou da remoção de proteções existentes. 

2. Nós respeitamos a diversidade de tradições regionais e não tentaremos impor nosso ponto de vista a outras culturas de escalada – nem aceitaremos os valores de outros impostos sobre os nossos. 

3. Rochas e montanhas são um recurso limitado para aventura que deve ser compartilhado por escaladores com os mais diversos interesses e por muitas gerações que virão. Nós entendemos que gerações futuras precisarão encontrar suas próprias NOVAS aventuras dentro desse limitado recurso. Nós tentamos desenvolver paredes ou montanhas de uma forma que não roube a oportunidade do futuro. 

4. Em uma região em que grampos são aceitos, é desejável que sejam mantidas vias, seções de morros ou morros inteiros livres de grampos de maneira a preservar um refúgio para aventura e para mostrar respeito pelos diversos interesses de escalada. 

5. Vias com proteções naturais podem ser tão divertidas e seguras para escaladores recreativos quanto vias grampeadas. A maior parte dos escaladores pode aprender a colocar proteção natural segura e todos devem ser educados para o fato de que isso proporciona aventura adicional e uma experiência rica e natural, com segurança comparável, uma vez aprendidas as técnicas. 

6. Em caso de grupos com interesses conflitantes, os escaladores devem resolver suas diferenças através de diálogo e negociação para evitar que o acesso seja ameaçado. 

7. Pressões comerciais nunca devem influenciar a ética de escalada de uma pessoa ou de uma região. 

8. Bom estilo em alta montanha implica no não uso de corda fixas, drogas de aumento de performance ou oxigênio engarrafado. 

:: Artigo 9 – Conquistas 

MÁXIMA 

A conquista de uma via ou de uma montanha é um ato de criação. Ela deve ser feita em bom estilo de acordo com as tradições da região e devem mostrar responsabilidade com a comunidade de escalada local e com as necessidades dos escaladores futuros. 

1. Conquistas devem ser ambientalmente responsáveis e compatíveis com regulamentos locais, com as vontades dos proprietários dos terrenos e com os valores espirituais da população local. 

2. Nós não vamos desfigurar a rocha por meio da quebra ou da adição de agarras. 

3. Em regiões alpinas, as conquistas devem ser feitas exclusivamente guiando (sem peça pré-fixada acima). 

4. Uma vez respeitadas as tradições locais, cabe ao conquistador determinar o nível de proteções fixas em suas vias (levando em consideração as sugestões do artigo 8). 

5. Em áreas designadas como reservas selvagens ou naturais por administradores ou pelo comitê de acesso local, grampos devem ser limitados ao mínimo absoluto para preservação do acesso. 

6. Cavar buracos e bater grampos durante a conquista de vias em artificial deve ser mantido em um mínimo (grampos devem ser evitados mesmo em ancoragens de paradas, a menos que sejam absolutamente necessários). 

7. Vias de aventura devem ser deixadas tão naturais quanto possível, contando com proteção móvel sempre que viável e utilizando grampos apenas quando necessário e sempre sujeitando-se às tradições locais. 

8. O caráter independente das vias adjacentes não deve ser comprometido. 

9. No relatório de conquistas, é importante relatar os detalhes com a maior precisão possível. A honestidade e a integridade de um escalador serão presumidas a menos que haja evidência comprometedora. 

10. Altas montanhas são um recurso limitado. Nós encorajamos os escladores a utilizarem o melhor estilo. 



sexta-feira, 16 de maio de 2014

Correndo com Gigantes

Por André Caúla

Aos poucos vamos ganhando confiança e ampliando nosso desafios. Vamos também experimentando diferentes modalidades esportivas e nos identificando com algumas delas. Já percebi que gosto de esportes em contato com a natureza e sempre tive vontade de participar de uma corrida de aventuras, um esporte rústico, bruto e radical, que exige tanto preparo físico quanto muito preparo psicológico para passar por diversas dificuldades e privações. Entretanto, sempre esbarrava na minha total falta de conhecimento em técnicas verticais e canoagem, lógico sem contar o principal, a orientação e navegação. Certo dia, treinando corrida na Vista Chinesa, encontrei com meu amigo Gabriel “Gabo” Tavares, e recebi o convite para participar de nada mais, nada menos, do que o Expedição Terra de Gigantes, uma das provas de corrida de aventuras mais difíceis do país. Rapidamente fui convencido de que seria capaz de participar desta prova na categoria Aventura com cerca de 120km, de corrida, bike, canoagem em corredeiras de rio e rapel, sem equipe de apoio. Combinamos de montar 2 duplas, Gabo e Mauro Chasilew, que já haviam feito juntos 2 Ecomotions, e André Caúla e Dudu Gomez, iniciantes neste esporte. Faríamos a prova toda juntos, pois somente o Gabo sabia navegar. Bem, resolvido o problema de orientação e navegação, só faltava solucionar minha falta de conhecimento em técnicas verticais e canoagem. Então, fomos as Paineiras onde treinei um rapel e a Lagoa onde remei por cerca de 20 minutos. Estava seguro pro desafio, hehe.

Depois de arrumar uma lista infinita de equipamentos e alimentos, partimos para Paraíba do Sul, local do evento. No hotel sede, haviam equipes espalhadas por todo canto, arrumando bikes, mochilas e, principalmente, estudando o mapa. Como o Gabo havia chegado antes, procuramos por ele imaginando ele isolado em algum lugar com o mapa, mas ele estava tranquilamente brincando com os filhos. Fizemos nossas últimas arrumações e fui com Dudu deixar as bikes na área de transição 3 (AT3) as margens do Rio Paraíba do Sul. O local era tão distante, que levamos mais de 2 horas para voltar e perdemos o briefing técnico com as informações sobre a prova. Tranquilo, afinal era nossa primeira corrida de aventuras, e já me faltavam tantas informações, que isso não faria mais diferença. Foi o tempo, de vestir a roupa de prova, encher o corpo de vaselina, Hipoglós, Bepantol, repelente, protetor solar, maionese e ketchup. Pronto pra largada! O objetivo do grupo era aparentemente simples: completar a prova, evitando os tempo de corte. Música alta, aplausos, gritos e assovios, foi dada a largada as 16:00 para cerca de 15km a pé. Como uma manada, todos os atletas correram em velocidade, virando a direita. Tive o impulso de correr seguindo o grupo, mas o capitão Gabo disse para esperar e caminhar, assim fomos os últimos a passar pelo pórtico de largada e, diferentemente, seguimos para a esquerda, seguidos por duas duplas apenas. Algum tempo depois, saímos da estrada de terra e entramos numa trilha fechada, tentando aproveitar ao máximo a luz do dia. No topo de uma serrinha, a trilha desapareceu e seguimos pelo pasto a procura de uma estrada de terra com um poste onde estava o primeiro posto de controle (PC). Já escuro, com algumas dúvidas normais, achamos a estrada de terra certa, encontramos o PC1 e seguimos num trote leve até o asfalto para a AT2, onde faríamos a etapa de 10km de canoagem. 


Próximo das 20:00, chegamos a margem do rio. Vestimos os coletes e descemos uma pirambeira arrastando, ou sendo arrastados pelos caiaques duplos. Colocamos na água gelada do rio, com a ajuda do staff que nos disse o seguinte: “Em algum momento, vocês vão ouvir um barulho muito alto de corredeiras, mas não se assustem, pois é só o eco da água nas pedras.” Descemos o rio, com a visão limitada pelo estreito faixo de luz preso ao capacete. Ao ouvir o barulho das corredeiras, vi a minha frente, nossos companheiros Gabo e Mauro, desapareceram engolidos pelo rio. Gritei pro Dudu, que desceríamos um buraco e ele mandou remar a frente e segurar firme o remo. Descemos e... viramos. O colete frouxo que vestia, subiu para minha cabeça, um desespero tomou conta de mim, nadar, segurar o remo e... respirar. Após afundar, tentei sair das profundezas para respirar, mas fui impedido pelo caiaque acima de mim, engoli muita água. Segurando o remo com uma mão e tentando sair de baixo da embarcação, consegui respirar e me distanciei do caiaque e do Dudu. 

Finalmente nos reagrupamos. Após superar a Cachoeira do Capote, seguimos rio abaixo, agora num trecho bem mais tranquilo. Acima um lindo céu estrelado, uma lua fina nos iluminava discretamente, abaixo o rio transpirava uma fumaça fria e misteriosa, assim passamos por de baixo de uma ponte férrea e o trem apitou anunciado a nossa passagem, um momento mágico e inesquecível. O rio largo parecia um labirinto, a até ali, a orientação era imprescindível. Em alguns momentos ficávamos presos nas pedras, em outros, os peixes saltavam sobre nosso caiaque. Em pouco mais de uma hora, chegamos ao AT3, onde estavam nossas bikes.


Com um frio de rachar, vestimos o casaco, luvas e sapatilhas, nos alimentamos bem e saímos pra uma estimativa de 4hrs de pedal, com um vento gélido cortando nossa face. Cruzando estradas de terra numa serra alta, marcamos o PC4 e seguimos ladeira acima a procura do próximo PC, as vezes pedalando, as vezes empurrando a bike. Algumas dúvidas na navegação, sono batendo, frio demais nas descidas. Em um bifurcação, seguimos a direita e descemos uma longa ladeira. Em pouco tempo, começamos a reconhecer aquele local, já havíamos estado ali, caminho errado! Voltamos a pedalar e empurrar ladeira acima, refazendo o mesmo percurso mais uma vez. Esta subida era paralela a uma estrada principal, o que induziu muitas equipes ao erro. Desta vez, seguimos a esquerda e encontramos o PC5 as 5 da manhã. Continuamos descendo até encontrar um carro da organização e uma luz distante piscando SOS, sinalizando a AT6. Um outro carro veio em nossa direção, parou e o Bernardo Tillmann saiu. Havia desistido da prova, sem achar o PC7. Descemos morro abaixo por entre a vegetação. Então, fomos informados que estávamos em segundo lugar, isso sem encontrar ninguém no caminho... e com saída da equipe Tribus, poderíamos assumir a liderança se achássemos o PC7. Isto começava discretamente o mudar o ritmo de prova, afinal podíamos ganhar a competição. Aqui encontramos pela primeira vez o saco de apoio com comida e equipos. Nos alimentamos, vestimos o tênis e seguimos a pé para o trecho mais técnico da prova com quase 25km. Tínhamos que achar 2 PCs, sendo o mais distante a 15km na outra ponta da serra. Muitas opções de caminho e com 1 rio largo no meio.



Com um lindo amanhecer, caminhávamos sonolentos e cambaleantes pelo acostamento de uma estrada de asfalto, paralela ao rio Paraibuna. Neste momento, Gabo, nosso navegador e exímio estrategista, revelou seu plano, chegaríamos primeiro o PC8 e depois para o PC7. Legal, mas o PC8 estava do outro lado do rio, que era largo e com uma forte correnteza. A ponte mais próxima era muito distante. Então, ele anunciou, atravessaríamos a nado. Escolhemos um trecho mais estreito, cruzamos uma propriedade, blusas na mochila e, um de cada vez, nadou até a outra margem. Atravessamos um bela fazenda, já em terras mineiras. Ali observamos uma espécie rudimentar de balsa, presa a cabos de aço, com funcionamento na força bruta. Dudu e Mauro foram marcar o PC8, enquanto eu resolvi pedir para usar a balsa. Com um típico sotaque do interior, o administrador da fazenda nos deixou usar o maquinário. Subimos a bordo, enquanto o Dudu puxava o cabo de aço nos levando de volta a outra margem. Outro grande momento. De novo no asfalto, chegamos a pequena cidade de Afonso Arinos e paramos no Bar do Rogério para comer. Cansado, apaguei sobre a mesa do bar. Meus companheiros me acordaram e seguimos adiante em direção a Serra das Abóboras, a etapa mais complicada que  cruzava vários trechos de mato sem trilhas. Caminhamos debaixo de um sol de rachar por 8 horas, e depois soubemos que de todas as equipes que estavam próximas neste trecho, só uma conseguiu sair da serra, e mesmo assim porque voltou pelo mesmo caminho que foi ao PC, aumentando em quase 10Km a pernada. As outras se perderam e acabaram abandonando.





Chegamos ao entardecer no AT9, já pro rapel de 130mts na cachoeira, e voltamos para mesmo AT onde estavam as bikes e o saco de apoio. Nessa hora, confirmamos que estávamos liderando, mas com a segunda noite começando, tínhamos que administrar o cansaço físico, mental e a falta de sono. Eu estava exausto, e tinha vontade de desistir, mas meu companheiros não deixaram. Gabo já tinha anotado no mapa um caminho alternativo 20Km mais longo, porém com muitos trechos de asfalto que iriam reduzir o desgaste. Optamos por este acreditando na vantagem que ainda tínhamos paras outras equipes, e por termos mais opções de descanso e comida ao longo do caminho (passamos por 2 vilas com comércio). Marcamos o PC10, último de todos e nos dirigimos a linha de chegada. O pedal de volta deu 75Km com 2 serras, o que eu só descobri após terminar a prova. Paramos pra comer 2 vezes e o receio era de dormir pedalando. Situação bem no limite entre chegar logo e parar pra dormir. Demos breves paradas, acertamos o percurso e cruzamos a linha em primeiro lugar quase meia noite e após 32horas de prova non-stop. Contando as perdidas e o caminho alternativo do segundo trecho de bike foram mais de 160Km de prova.



Concluir uma prova com tamanho grau de dificuldade já é uma grande conquista. Fazer isso, terminando em primeiro lugar é inesquecível. Mas, se divertir no meio do perrengue, apreciar e interagir com a natureza, superar nossos próprios limites, ao lado de pessoas com um espírito de equipe e bom humor singulares, simplesmente não tem preço. Obrigado Gabo, Maurão e Dudu, vocês são verdadeiros Gigantes!